Sexta-feira, Abril 11, 2008

- Dizem que o Fundo de Quintal Literário acabou.

- Puxa, que pena. Mas quando foi que ele existiu?

- É uma boa pergunta...

Terça-feira, Março 25, 2008


"É dos carecas que as nações gostam mais"

Domingo, Março 16, 2008

Começou como um caso

e terminou dizendo "eu caso".

Quarta-feira, Março 12, 2008

AS PALAVRAS
SÁBIAS DO
SENHOR
PLAYMOBIL........... (13)


"Quanto menos o ornitorrinco se conhece
mais ele acha o coala esquisito"

Quarta-feira, Março 05, 2008


"Viva a abertura"

Quinta-feira, Fevereiro 21, 2008

Apropriações Indébitas # 12


Vez por outra nosso Fundo de Quintal Literário trará até vocês algumas das melhores postagens de outros blogs, procurando, assim, superar suas próprias limitações criativas e, sobretudo, homenagear as mentes em atividade na rede. Assim, dando prosseguimento à série, um post original de:


Marcelo Diana




Time is Monet.


* pra se perder por aí é só visitar estes

Quinta-feira, Fevereiro 14, 2008

Eram tantos os olhares por ele recebidos que, como de costume, caiu maravilhado consigo mesmo, sorrindo durante toda a festa sem se dar conta da casca de feijão colada aos dentes.

Domingo, Fevereiro 10, 2008



O bastão dos 30


Oh, homem que tanto sonha ser mais

Livra teus ombros pesados

Lavra tua mente vazia

E entende,

De uma vez por todas,

Que entre o tudo e o nada

Sempre existe algo

Que se pode alcançar

Com as próprias mãos.

Sexta-feira, Fevereiro 01, 2008

"Não meta o nariz onde não é chamado"


Segunda-feira, Dezembro 03, 2007



Para você que, inacreditavelmente, sente saudades deste espaço literalmente insano, preparamos uma singela lembrancinha: uma coletânea de contos, crônicas e poemas do Honorável Sr. Lyra subscrita pelo sugestivo título "Dos papéis na gaveta"!!! Os escritos vêm acompanhados de desenhos e encontram-se no formato pdf. Se impresso, o conteúdo pode, além de distraí-lo no banheiro, suprir uma eventual falta de papel higiênico...

Para fazer o download basta clicar no link abaixo:

Segunda-feira, Outubro 08, 2007



Quinta-feira, Outubro 04, 2007

Contos de Quinta...




Meus cumprimentos a todos os leitores desse espaço virtual. Como explica o título, sou o Monsieur Du Contraux, Alexis Du Contraux - para ser mais exato - e é com muito orgulho que hoje inicio meus trabalhos como colunista do Fundo de Quintal Literário. Bem, feitas as apresentações, creio que é hora de ir direto ao tema de minhas reflexões auspiciosas desse mês, isto é, sobre como a alimentação vegetariana consiste, ao fim e ao cabo, em um modelo alimentar cruel, pretensioso e politicamente incorreto.

Em primeiro lugar devo chamar atenção para uma das premissas mais clássicas da filosofia vegetariana, cujas bases se assentam sobre o desejo de não se alimentar com nada que um dia tenha sido um ser vivo. Muito embora a carne seja o principal vilão nesse contexto, é preciso ressaltar que certos grupos radicais como os “vegan” incluem no rol de interdições alimentos como o queijo, o leite e até mesmo a água com gás. Muito bonito, mas vejamos isso de perto.

Ora bolas, tudo bem que eles não queiram comer carne, mas isso não quer dizer que eles não tenham que matar para se alimentar – afinal todas as plantinhas espalhadas pelo globo são, definitivamente, seres vivos! E o pior é que, negando esta condição às plantas, aos vegetais, às árvores e seus frutos, e folhas e flores belíssimas, esses tais naturebas vão espalhando a morte e promovendo uma verdadeira “vegetificina”.

Sim, meus caros amigos, são palavras duras, mas nem por isso levianas. Há anos esse massacre vem ocorrendo e desde os anos 60 não poupa machos, fêmeas e, principalmente, crianças – uma vez que o índice de mortandade entre os brotos de feijão, bambu e grama já se encontra entre os maiores de todo o globo. Só para se ter uma idéia, para cada vitela (tipo de carne oriunda de bezerros molengas) que chega às mesas do consumidor, são assassinados cerca de 875.600 brotos vegetais, muitos deles na presença dos próprios genitores.

Além disso, muitos desses homens e mulheres bebem o sangue de suas vítimas, que chamam de “suco de clorofila” como se o cientificismo da nomenclatura pudesse abstê-los da culpa e da verdade por trás de seus atos supostamente bem-intencionados. Com sua postura leviana os vegetarianos conseguem ser nocivos não só aos pobres vegetais como, também, aos homo sapiens e ao planeta como um todo – visto que, em tempos de aquecimento global e desastres ecológicos, o extermínio das populações verdes com objetivos predatórios alimentares pode ter efeitos catastróficos para nosso meio ambiente.

Finalmente, gostaria de terminar minha breve digressão com um apelo para que todos os seres humanos desse planeta se unam contra os vegetarianos de todo o tipo, promovendo a aniquilação de sua maldosa filosofia de vida em prol de um mundo mais sadio, com mesas fartas e florestas densas – lembrando que, se por um lado os vegetais são capazes de produzir seu próprio alimento, por outro, se uma vaca pudesse, ela devoraria você e toda a sua família.

Preserve o verde. Coma carne.





Monsieur Alexis Du Contraux é intelectual, é francês, é o dono da verdade e trabalha para o Fundo de Quintal Literário.



Terça-feira, Setembro 25, 2007


Quando finalmente aprendeu a conviver com as dores terríveis no estômago, a tremedeira constante e o incômodo suor frio proveniente da abstinência de drogas, concluiu que, de fato, tinha adentrado o reino da vida saudável.

Domingo, Setembro 23, 2007


"Quem com porcos se mistura, farelo come"

Quinta-feira, Setembro 20, 2007

Contos de Quinta...


para Samantha Abreu


Se pudesse contradizer a ordem natural das coisas e, assim, tornar-se a última testemunha do seu ato final de existência, veria em posição privilegiada o balé descendente da rosa, confundindo em espirais de vermelho-sangue a placidez do azul celeste e a palidez de sua carne tesa rente à madeira. Ali, deitada, como se nunca tivesse levantado para a vida, foi agraciada também por amarelos, brancos e roxos – um mar de cores insensatas que se misturavam, entre pétalas impotentes, diante da força e da presença do vermelho fúnebre.

Sentia o desconforto escorrer-lhe pelo corpo insinuante, massacrando com seu odor ocre e viscosidade magmática a mocidade límpida de seus treze anos de idade. Jamais esqueceria aquele momento de apoteose caótica, quando então o sangue desceu por entre suas pernas trêmulas de medo e anunciou, como quem canta, o fim do primeiro ciclo de sua inocência: “Cordeiro de Deus que tirai os pecados do mundo, tende piedade de nós. Cordeiro de Deus que tirai os pecados do mundo, tende piedade de nós. Cordeiro de Deus que tirai os pecados do mundo, tende piedade de nós”.

Contudo, apesar da eloqüência do sangue, não era dele que emanava o mantra cristão que ressoaria em seus ouvidos ainda por muito tempo. O sangue, o som, a sanha daquele momento, tudo, enfim, provinha dela, a Mãe. E pensava nela, a Senhora Perfeita, que com toda sua educação privilegiada, sua mania de limpeza, sua beleza pasteurizada por plásticas e perfumes importados, também não conseguiu evitar, nos seus jovens tempos, esse mesmo constrangimento. De certa forma, era essa íntima ligação entre ela e a Mãe a razão de seu desespero, como se a descamação do endométrio a tornasse uma versão mais jovem daquela Mulher que beijava carinho e soprava álcool de lábios tingidos de batom vermelho. Vermelho, vermelho, vermelho-sangue...

Não soltou um único gemido de prazer e tudo o que dela saiu foram gritos de dor. Uma dor lacerante que lhe varria o corpo como impingisse, de dentro para fora, um renascimento completo, deflorando por inteiro a menina que se tornava, de uma vez por todas, a mulher que ainda não se preparara para ser. No lençol, atestando a ardência íntima de suas partes menos conhecidas, uma mancha vermelha de proporções médias, colorido único de um cenário negro por excelência: “Puta, puta, puta – igualzinho sua Mãe. Puta, puta, puta – igualzinho sua Mãe. Puta, puta, puta – igualzinho sua Mãe”.

Os gritos pareciam ser todos dela, mas o sangue, o silvo, o sexo daquela encenação eram protagonizados por ele, o Pai. O Homem, que chegava em casa tarde da noite com os cabelos tão molhados que ensopava de lágrimas o rosto da Mãe, acenava seu contracheque parrudo com a mão esquerda, enquanto traçava no ar, com toda sua potência destra, o arco que estalaria em cinco dedos no rosto da esposa ébria e descontente. Era nesses momentos que explodia toda a ambigüidade da menina, quando, apavorada, sentia-se também tomada por ondas de uma jubilante admiração. Entretanto, ainda que devota daquele homem oprimido pelo nó da gravata, quando tentava se lembrar, tudo o que podia ver eram seus olhos repletos de ira, desenhada em gráficos de traço vermelho. Vermelho, vermelho, vermelho-sangue...

Havia por fim encontrado a paz. Pode-se dizer que mergulhara em um mar de segundos infinitos, onde nadou em ondas silenciosas logo que seus tímpanos explodiram com o estampido seco e libertador do disparo. Quente e viscoso como nunca antes, o arauto rubro inundou seu corpo de redenção e, como fosse prova cabal de sua expiação e sacrifício, parecia render louros ao destino salvador: “Vai morrer pra aprender que mulher de malandro nasceu pra levar pau. Vai morrer pra aprender que mulher de malandro nasceu pra levar pau. Vai morrer pra aprender que mulher de malandro nasceu pra levar pau”.

Pareciam ser do rapaz com o qual se juntara – para a valsa de uma paixão violenta – os urros de ódio e ressentimento a encerrar o romance proibido que lhe custara o desgosto da família e sua saída de casa. Mas, pela primeira vez na vida, o sangue, o sonho, a soma de todo um momento eram inteiramente seus e de mais ninguém. Fechou os olhos e sentiu a escuridão avançar, ainda que o sol preenchesse de luz suas pálpebras banhadas de um sossego vermelho. Vermelho, vermelho, vermelho-sangue.

Terça-feira, Setembro 18, 2007


"Lembrança de Brasília"

Segunda-feira, Setembro 17, 2007

Livros, Discos e Sei Lá Mais o Quê # 12

Sei Lá Mais o Quê indicado: Sacha Baron Cohen

Dizem por aí que piada explicada não presta. Entretanto, quando o assunto é humor, podemos afirmar sem medo que existe uma tensão inerente ao ato de achar graça. Isto ocorre porque os estratagemas utilizados para se fazer piada de algo ou alguém exigem, impreterivelmente, um interlocutor digno de compreendê-los e, assim, oferecer o feedback necessário para a consumação da pilhéria. Acontece que nem sempre humorista e receptor se encontram em sintonia, prejudicando não só a piada como, sobretudo, aquele que a conta - como parece ser o caso do humorista inglês Sacha Baron Cohen, protagonista do filme Borat e do programa Da Ali G Show (canal Sony, terças-feiras, 22:30).

De fato, à primeira vista, o tipo de humor utilizado pelo comediante parece não ultrapassar a seara do besteirol politicamente incorreto. Contudo, ao observador mais atento, Sacha Baron revela em suas esquetes um humor perspicaz e inteligente que se aproveita da credulidade e preconceitos alheios. O personagem Borat, por exemplo, só é viável graças a visão extremamente distorcida que possuem ingleses e americanos sobre "povos distantes e exóticos", como o Cazaquistão - terra natal do personagem. Aproveitando-se dos estigmas e da visão torpe ocidental sobre o oriente, Sacha Baron é capaz de extrair o lado mais negro de cada um sem que sequer percebam. É no ápice desse constrangimento que encontramos uma das formas de humor mais criativas e inteligentes dos últimos tempos e, muito embora existam pessoas capazes de associá-lo à estupidez gratuita da série Jackass, sem dúvidas veio para ficar.

Se alguém ainda duvida da capacidade do cara parabéns, pois tem muita gente boa que acredita - e por isso é alvo de seu humor - em histórias como essa logo abaixo, a saber, a biografia fictícia do "segundo melhor repórter do glorioso país Cazaquistão":


BIOGRAFIA:

Filho de
Asimbala Sagdiyev e Boltok, o Estuprador — de quem também é neto —, nasceu em 30 de julho de 1972 na vila fictícia de Kuzcek, no Cazaquistão. Se diverte jogando pingue-pongue, dançando música Disco e fotografando mulheres enquanto elas vão ao banheiro. Viúvo, comemora a morte da primeira esposa Oxanna — violentada e comida por um urso — e já comprou uma nova mulher, que, apesar de cozinhar bem e puxar firme a carroça, três anos mais tarde — ao completar 15 anos — começou a ficar com a voz grossa, ganhar pêlos pelo corpo e ficar com a vagina mais larga do que um saco vazio. Mais tarde se casou de novo, arranjou uma patroa, uma namorada e uma profissional que vale cada centavo.

Tem um filho de 13 chamado
Hooeylewis e dois gêmeos de 12, Biram e Bilak, sendo também avô de dezessete crianças — algumas ele planeja vender para a popstar Madonna. Na sua família ainda estão a irmã mais velha Natalya — a quarta melhor prostituta do país (sexta depois da turnê das Pussycat Dolls) — e o caçula Bilo — retardado com a cabeça em forma de espiga e mais de duzentos dentes. Em sua viagem aos Eu e A, em busca de um romance com Pamela Anderson, conheceu Luenell, com a qual uniu laços, nas ruas.

Respeitado apresentador de telejornal na sua pátria natal, é membro do quadro de honra da Universidade de Astana, onde se formou com louvor não só em jornalismo mas em inglês e no estudo da Praga. Prestou durante longos anos serviços ao governo criando cinco novas pragas que devastaram cinco milhões de cabras no Uzbequistão, sem contar a época em que fez gelo, foi guardador de sêmen de animais, caçador de ciganos e removedor de pássaros mortos em um computador.

Pagão até fazer amizade com os pentecostais e converter toda a sua vila ao cristianismo, admira a visão política de Joseph Stalin por causa do forte e poderoso pênis do ex-ditador russo e apóia o presidente Bush na sua guerra de terror.

fonte da biografia: Wikipedia.

Domingo, Setembro 16, 2007


"Eu quero ter um milhão de amigos
e bem mais forte poder cantar"

Quinta-feira, Setembro 13, 2007

ATENÇÃO JOVENS:
O MUNDO FINALMENTE É
UM LUGAR MELHOR...


... POIS O
FUNDO DE QUINTAL LITERÁRIO
VOLTOU!


Sim amigos, o momento pelo qual todos esperavam ansiosamente finalmente se concretizou: o FQL retorna, após largo período de exílio virtual, com força total! É hora de enxugar as lágrimas, depor o ar melancólico da face, fazer um curativo nos pulsos cortados, abrir as janelas virtuais e deixar entrar o sol da felicidade que só mesmo o Fundo de Quintal Literário é capaz de irradiar!!! Sigam-me os bons!!! E os mais ou menos também!!!

Quinta-feira, Setembro 06, 2007



"Quem canta seus males espanta"



Segunda-feira, Setembro 03, 2007

Dormindo com o Inimigo
Amigos do FQL, infelizmente estamos passando por dificuldades técnicas ocasionadas por um daqueles vírus espiões instalado no meu PC. Isso quer dizer que estou impossibilitado de acessar a internet de casa, pois tal ação implica dividir meu computador com um estranho do além virtual. Desta feita, rogo pela canalização da energia positiva de todos os nossos milhões de leitores para que meus intrépidos amigos Athos e Lelo possam resolver este problema.
Até breve.
(ou nem tão breve assim).

Quinta-feira, Agosto 30, 2007

Contos de Quinta...

De: Nestor
Para: Humanidade

(carta 3)


Aqui estamos nós, outra vez, interagindo à distância, como convém aos humanos quando querem parecer civilizados. Obviamente que, considerada a ontologia da palavra “civilização”, nunca levei o termo realmente a sério e se o utilizo aqui é apenas porque sou humano e, nesse caso, leviano como vocês.

Eu finjo, como finge qualquer ser humano, que construo uma rede de relações saudáveis, que respeito seus componentes, que os tenho amor e que entregaria a minha própria vida, sem pensar, por qualquer um deles. Eu minto, como eles mentem. Nós mentimos, eu e você, sempre que estamos juntos – e assim somos felizes.

Mas o pior não é mentir para os outros – “seu vestido é lindo” – nem mentir para si mesmo – “eu não tenho culpa” – pois, afinal, somos apenas humanos. A grande insensatez, por incrível que pareça, é a tal noção da verdade. Perdão pela sinceridade, mas somos todos grandes loucos se cremos de alguma forma na existência dessa dama mordaz e passional que, desde já, será registrada sob o peso da maiúscula: Verdade.

Dama ou meretriz, a Verdade consiste, na verdade, no Deus único, de cada homem único, que forma o imenso panteão do monoteísmo politeísta da humanidade. Cada homem guarda consigo uma aurora, enfiada no bolso, pronta para ser sacada e iluminar igualmente todo o coletivo com o peso de sua grandiloqüência.

Digo que a Verdade é tão sordidamente humana justamente por se pretender sobre-humana; ela não verga e prevalece, supostamente, diante de tudo e todos, como uma tela de cinema que exibe seu conteúdo inconteste para um espectador passivo. A Verdade alimenta as guerras, opõe egos, depõe a sensatez e distancia o homem de sua verdadeira missão: a insignificância consciente.

Ah, quantas vezes me vi solapado por inúmeras Verdades, tão cruéis e nitidamente tão parciais que, ao fim e ao cabo, eram menos que demonstrações miseráveis de arrogância e descontrole. A Verdade é o cristianismo, o judaísmo, o terrorismo e todas as outras religiões; a Verdade é a política externa norte-americana e os desmentidos da Ciência. Não, a Verdade não está lá fora, nem aqui dentro. Ela se arrasta por entre pedras e lama e aponta a saída do paraíso.

Como ser humano que sou, desde 1910, reverencio a mentira dentro de seus contornos bem definidos e essencialmente humanos: ela é moldável, adaptável aos sujeitos e situações, ela é calculada, refletida e socialmente culpável. A mentira é o conforto da alma e o asilo das relações. Ela se opõe à Verdade e, entre uma e outra, estabelecemos a distância como ponto morto das nossas próprias intolerâncias.

Eu não tolero os humanos, a despeito de sê-lo. Eu minto, contudo. Por isso só falo a Verdade.


* Para ler as outras cartas do velho Nestor:

Carta 01

Carta 02


Segunda-feira, Agosto 27, 2007




Caros leitores, o Fundo de Quintal Literário encontra-se em plena fase de reestruturação para servir melhor toda a família brasileira. Neste exato momento as mentes mais brilhantes de todo o globo estão reunidas para transformar este blog em um espaço ainda melhor. É claro que andaram espalhando por aí que nós tentamos vender o FQL para um grupo de empresários japoneses e que eles ofereceram uma ninharia, mas tal boato é apenas maldade dos ricos e poderosos que planejam calar o Honorável Sr. Lyra - também acusado de verme preguiçoso - em sua luta pela justiça e solidariedade.

Não temam jovens, na próxima quinta-feira o Fundo de Quintal Literário faz sua reinauguração e retoma o fluxo natural das atividades. Enquanto nada acontece, preparamos para vocês um delicioso checklist, com algumas postagens de segunda categoria que, no caso, venderei aos senhores como "preciosidades do passado".

Cordialmente,

Lao Chi Chi.


Terça-feira, Agosto 21, 2007


EVITE
A
SENTENÇA...



por Dr. Iohannas Beebop.




1) Devo cortar o fio vermelho ou o azul?!

2) Isso não me parece um clitóris avantajado.

3) Tranquilo, chegando lá o pessoal me empresta algum...


(porque existem coisas que só são feitas
para provar que nunca deveriam ter sido feitas)


Segunda-feira, Agosto 20, 2007





Collor indica: Cem Anos de Solidão, de Gabriel Garcia Márquez.







FHC indica: A Volta ao Mundo em 80 Dias, de Julio Verne.








Lula indica: A Mão Esquerda, de Fausto Wolff




Sexta-feira, Agosto 17, 2007




"Você não gosta de mim, mas sua filha gosta"


Terça-feira, Agosto 14, 2007




Ela, que carregava o emblema da ansiedade desde o nascimento prematuro aos sete meses da gestação, saiu de casa apressada para uma entrevista e, sem pensar nos filhos que gostaria de ter, no carro que gostaria de comprar, sem nem pensar ao menos na doce vovó que, sentada, lhe suplicava para que tomasse o café-da-manhã, lançou-se à vida e foi atingida por um automóvel, morrendo precocemente aos 29 anos de idade.


Domingo, Agosto 12, 2007



"Mais vale um pai na mão do que dois voando"


Sábado, Agosto 11, 2007


Vez por outra nosso Fundo de Quintal Literário trará até vocês algumas das melhores postagens de outros blogs, procurando, assim, superar suas próprias limitações criativas e, sobretudo, homenagear as mentes em atividade na rede. Assim, dando prosseguimento à série, um post original de:


Gigi


cenas cariocas.

[praça XV. 13h. ponto final do 268]

– er... toma aqui sua pizza.

– não quero. você sempre me deixa com fome! fui te dar um pedaço da minha pizza, você avançou nela que nem um bicho... derrubou no chão... seu bicho!

– mas aqui... comprei outra pra você! toma!

– comprou com que dinheiro que você não tem dinheiro? você nunca tem dinheiro, você não comprou merda nenhuma. essa é aquela do chão. seu bicho!

– não... eu comprei!

– essa é aquela do chão, eu que não como isso. tá pensando que eu como lavagem? quem come lavagem é a sua mãe!

– escuta aqui, agora você está passando dos limites. me dá um trago desse cigarro aí!

– não dou, não! não dou trago nenhum não que teu ônibus vai sair... senão você vai derrubar o meu cigarro, seu bicho! não tem educação não? parece que foi criado no mato... EEEEUUU fui criada no mato e tenho educação! seu bicho!

– err...

– e tua irmã, que trabalha na termas?

– ...

* Textos com visões inusitadas, escritos no bom português,
você só encontra se mergulhar

Dentro da Noite Veloz

Quinta-feira, Agosto 09, 2007



Chaupiscos Digressivos: a metafísica do cocô

O mundo coprofólico enfrenta, com o passar dos tempos, uma série de entraves situados para além do mau funcionamento intestinal. Não se trata, contudo, de um debate recente este que, por nós, intelectuais da escatologia, é conhecido como metafísica do cocô.

Nesse sentido, é no texto bíblico do Gênesis que encontramos, sob aura sacra, a primeira referência acerca do tema, explícito no relato sobre a criação. A passagem reveladora do texto sagrado conta sem pudores aos homens de bom coração que, no início dos tempos, “do barro (de Deus) fez-se o homem”.

Desde então, na tentativa de compreender seu lugar no mundo, a raça humana procurou respostas para sua condição universal e, no curso evolutivo de sua história singular, subverteu crenças, derrubou dogmas e instaurou, por repetidas vezes, uma nova perspectiva, diametralmente oposta à anterior, sobre a relação homem/merda.

Com o Iluminismo, e a crença no homem como centro do mundo, nasceu a corrente filosófica que pregava justamente o contrário do texto bíblico de Gênesis. Sua argumentação fundamental dizia que “se do barro fez-se o homem, do Homem também se faz o barro”. Nesses tempos de luzes os banheiros eram locais de efervescentes trocas, freqüentados por intelectuais e artistas interessados em experimentar a sensação divina do ato da merda. A estátua “O Pensador” - uma das mais famosas esculturas de bronze do escultor francês Auguste Rodin – é uma homenagem ao espírito engrandecedor desse período.

Os novos tempos modernos trouxeram consigo uma reviravolta na realidade do cocô. Do Iluminismo à Revolução Industrial, o homem passou a se sentir tão igual a Deus que resolveu renegar sua obra, no caso, a merda, e cagar para o próprio homem. Por muito tempo os operários de todo o mundo – homens, mulheres e criancinhas – foram tratados como dejeto e jogados no vaso sanitário do capitalismo para que os governos dessem descarga...

Atualmente a pós-modernidade vem suscitando questões relevantes sobre a relação cotidiana estabelecida entre o homem e a merda. Um dos estudos mais interessantes sobre o tema vem do antropólogo russo Brunov Cardovsky Osorov, que estuda o papel do papel higiênico no dia-a-dia do homem pós-moderno. O intelectual propõe uma visão dualista sobre “o ato da limpeza barro-metafísico representado pelo papel higiênico”, que consiste, segundo sua teoria, numa “escolha coordenada assindética entre dois tipos clássicos de papel: o rasga-cu e o borra-dedo (Osorov, 2005).

Ferir o ânus ou borrar o dedo: eis a questão dos novos tempos. Entretanto o que não muda, desde que o primeiro hominídeo pisou na Terra, é que somos seres cagantes e a única coisa que nos diferencia dos outros animais é que tratamos a merda com vergonha. A despeito de fazermos as maiores cagadas do planeta.


Dr. Iohannas Beebop

PHD em Escatologia

Universidade Chicago, Boston.


Quarta-feira, Agosto 08, 2007



MANCHA DO PASSADO

Definitivamente ela o amava e não foi em vão que jurou estar ao seu lado na alegria e na tristeza, na saúde ou na doença. Desde que o conhecera sabia que era o homem de sua vida, fato este confirmado em cada abrir de portas, em cada casaco oferecido e, sobretudo, no companheirismo diário que fazia dele seu maior cúmplice. Mas agora, aquilo...

A mulher que julgava ter o marido perfeito, isto é, extremamente bem sucedido - um "homem de negócios", como ele mesmo dizia -, bonito, inteligente e compreensivo, descobrira uma terrível mancha em seu passado, bastante recente, por sinal. Ela, na condição de mulher e companheira, se questionava se tinha o dever de aceitar, ou melhor, de se sujeitar a um borrão, uma mácula fétida e vexatória como aquela, revelada no mais íntimo porão da vida de seu amado.

Quando o dito cujo chegou em casa, após um longo dia de trabalho, tudo o que desejava era um bom banho e um jantar pronto, mas antes teve que ouvir, por uns bons vinte minutos, a patroa reclamando e dizendo que nunca mais lavaria uma cueca dele que estivesse suja de cocô.


Segunda-feira, Agosto 06, 2007


AS PALAVRAS
SÁBIAS DO
SENHOR
PLAYMOBIL........... (12)




"Aquele que não tem medo da verdade
coça o cu e cheira o dedo"

Sábado, Agosto 04, 2007



"Quem não chora não mama"


Quinta-feira, Agosto 02, 2007

Contos de Quinta...

O CErco
(ou
"A TORRE")

Suportado por paredes de concreto imaginário, o homem ergueu seu castelo e cercou de muralhas sua recôndita fortaleza. Do outro lado do muro um mundo contra o qual lutava para impedir que adentrassem, e pilhassem, e destruíssem, e reconstruíssem, na praça de suas ilusões, um sem número de duras realidades.

Não era sem razão, contudo, o temor do homem aprisionado na segurança de seus sonhos: bem ali, diante de si, já se mostravam nítidos os efeitos devastadores com os quais haveria de arcar, no caso ver irrompidas suas defesas, o seu precioso Eu. Eram tantos, de tão quantos, não só homens e mulheres reais, com suas diligências reais, mas também – e sobretudo – um sem número de entes fantasmagóricos a exigir, brandindo correntes, foices e molhes de chaves, sua parte no quinhão dourado fortemente protegido à custa da autonegação do homem.

Apesar da vastidão, não havia ninguém em sua propriedade. Seus amigos, amantes, parentes e rostos conhecidos de todo o tipo se encontravam fora de sua cidadela, talvez recém evadidos de medo, talvez aguardando desde sempre uma chance verdadeira de entrarem - quem sabe expulsos sutilmente por ele mesmo de seu paraíso particular. Estava confuso e estava só. Mas a despeito da solidão e da razão embriagada, quem sabe por isso, encontrava-se, também, convicto de sua vitória frente ao cerco.

Conforme a agitação do lado de fora aumentava, e tudo então parecia prestes a ruir, o homem buscava o alto de seu palácio, onde julgava ter uma visão privilegiada de tudo o que se passava, esquecendo-se, convenientemente, que nas alturas de sua torre sem fim encontrava-se cego por névoas de espessa camada irrefletida. Porém era ali, justamente em meio às brumas de sua própria verdade, que o homem procurava tijolo por tijolo da muralha e saudava, com regozijo e desespero, a frágil solidez de sua condição.

De olhos fechados então o homem rezou, dirigindo uma prece a si mesmo. Com sua fé inabalável, cercado por gritos que vinham ecoando ao longo de toda a sua vida, passeou por entre bolas de fogo, lanças, flechas e arpões com placidez, admirado pelos desenhos que formavam ao riscar o céu. Estava maravilhado com sua inquebrantável resistência e via no lastro de sangue deixado atrás de si uma prova irrefutável de sua própria santidade. Sequer ao cair, quando então a torre desfez-se sob seus pés, ele temeu por sua segurança.

O homem pensava poder levitar...


Terça-feira, Julho 31, 2007


A EXISTÊNCIA TOMADA

Que a vida guarda surpresas para além do seu sempre súbito e traumático interrompimento ele sabia, mas refletia com dificuldades quando necessitava encarar o tema frente a frente. Não havia nada capaz de repô-la quando de seu
defloramento, nada passível de substituí-la quando de sua partida, nada, nada, nada que se aproximasse do cheiro específico, do gosto específico, da tangibilidade específica daquela existência já inexistente e, assim, despida de sentido orgânico.

Morreu sem saber do Cosmo, da grandiosidade do Universo. Morreu, quem sabe, se achando grande em demasia, quando era, na verdade, apenas mais um grão imperceptível na vastidão de um mundo complexo e repleto de mistérios tanto quanto de revelações. Sim, ela morreu. Esmagada. Num lampejo. E só.

Foi assim que, tomado por uma extrema agonia, o rapaz sensível trancafiou-se no quarto, aos prantos. Contudo, seu pai, que já não gostava nada daquela história de "budismo", enfureceu-se com a cena e ameaçou dizimar todo o formigueiro caso o filho continuasse fazendo escândalo tal qual um maricas...


Domingo, Julho 29, 2007



"Novas idéias, antigos ideais"

Sexta-feira, Julho 27, 2007


Caros leitores, poderia até dizer que estou sem criatividade e que, no momento, o volume de textos tem se apresentado não só ordinário como, sobretudo, relaxado. Mas a grande verdade é que perdi meu fornecedor de contos, um jovem negro e pobre, morador da periferia, que vende a preço de banana os textos que apresento aqui como meus. Em virtude disso, elaborei uma lista com os cinco melhores contos deste blog - ao menos os que me custaram mais dinheiro - para que os novos leitores possam conhecê-los e os velhos, se assim quiserem, matar suas saudades.

Quarta-feira, Julho 25, 2007




O tempo passa, o tempo mata, o tempo cura, o tempo falta...
... é sempre o mesmo tempo, no seu tempo diferente.


Mas afinal,
o que se passa com a forma como o tempo passa?
E como pode ser diferente o tempo,
se o tempo é o mesmo para toda gente,
se gente vive no tempo

(ainda que não só no tempo presente)

e se viver é passar para matar,
enfim,
a vida e o tempo,
que continua a passar
mesmo já tendo se passado uma vida?


Assim é que o homem passa

e perde-se no tempo justamente por aquele passar,

que a mudar nos passos dados,

passa por crianças,

e passa por homens,

e passa por velhos,

até que,

finalmente,

consegue passá-los para trás,

passado.

Terça-feira, Julho 24, 2007



Poderia ter sido ao pôr-do-sol, quando então reluziriam no ferro cromado do revólver os últimos raios de vida do perdedor, mas foi no recinto fechado de um escritório, sob o gélido ar condicionado, que os duelistas concluíram ser o mundo pequeno demais para os dois e decidiram, assim, realizar a fusão de suas empresas.

Sexta-feira, Julho 20, 2007


# 06


"O tempo é o melhor remédio"


Quinta-feira, Julho 19, 2007

Contos de Quinta...


O Homem Insólito

Quando nasceu já veio ao mundo com a missão de vencê-lo. Talvez fosse essa a razão de sua baixa estatura, atrofiada pelo peso de Atlas que era, sem dúvida alguma, a carga dessa insana responsabilidade depositada sobre seus ombros esquálidos. Tinha pernas, braços e cabeça atrelados ao tronco tanto quanto tinha a mente e seus cinco sentidos atrelados ao coração.

Nunca foi puro, porque nada nessa vida é uma coisa só. Especialmente nunca esteve só e, a não ser quando refletia sobre o mundo hostil a ser dobrado por ele, jamais considerou caminhar acompanhado apenas por sua própria sombra. Tinha amigos sinceros e inimigos dissimulados. Aos últimos se entregava para o combate totalmente desarmado, se deixando golpear por pena que sentia das mesquinharias e inseguranças alheias. Dos primeiros, porém, era refém confesso; a tal ponto que mesmo carinhos por vezes lhe feriam no rosto.

Como todos, via o mundo com seus próprios olhos, mas como poucos, ele avançava com suas próprias pernas na direção do mundo. Enquanto seguia, porém, jamais teve certeza se o mundo lhe dera tudo o que tinha ou se fora ele mesmo quem arrancara do mundo as suas necessidades e superficialidades vitais. Tinha convicção, porém, que cada passo dado seguia na direção que ele mesmo traçara. Ainda que com isso tivesse que pagar o preço das sinuosidades do percurso, sabia que quando olhasse para trás, contemplando os atalhos e desvios do trajeto, muitos seriam aqueles aos quais deveria agradecer. Ninguém, no entanto, que pudesse lhe cobrar dívidas.

Era um homem livre.

O mundo, da forma como o via, era romântico em suas miudezas. Ele, verdadeiramente miúdo, imaginava, portanto, também ser visto dessa mesma forma. Na forma como concebeu o mundo para o qual foi concebido. Na forma como durante tanto tempo procurou se esconder do mundo. Na forma como o mundo, à sua forma, o protegeu de tudo aquilo que temia, quando pensava justamente não temer nada que não fosse o mundo. Por tudo isso, naturalmente, sempre esperou o melhor dos homens e das coisas, como se os homens e as coisas fossem os homens e as coisas que ele via, da forma romântica como via o mundo tanto quanto por ele esperava ser visto.

Quando o mundo se tornara grande e ele ainda mais miúdo, ficou confuso. O que havia mudado não sabia, novamente, se por ele ou pelo próprio mundo. Sabia apenas que, antes mesmo de notar as pequenas modificações, tudo já se tornara estranho, distante, sem foco. Seu romantismo, seus sonhos, sua missão, tudo havia se apequenado, se tornado duvidoso e, enfim, rarefeito.

Mas o que havia mudado no mundo, senão a forma como ele o concebera? E mudada a forma do mundo, como haveria ele de modificar sua própria forma e lugar no mundo? E mudado o homem, mudado o mundo, ou, mudado o mundo mudado o homem? Fosse o que fosse, o que mudar quando tudo muda?

Era um homem deslocado.

Lembrou-se dos tempos em que ainda vestia calças curtas e o mundo era completamente seu. Naquela época repleta de sonhos, mas também de dificuldades, o menino que um dia fora era capaz de dominar o que quer que fosse contando apenas com os recursos de sua imaginação singela. O que ele via, o que sentia, o que sonhava; o que podia, o que sentia, o que almejava; o que sabia, o que sentia, o que criava. Era ele. O dono (do que sentia).

Chegada a noite o calças-curtas experimentava certa angústia. Apagada a luz, disfarçada a forma das coisas, o que era óbvio cedia vez ao incerto e a certeza apenas uma misteriosa sombra a intimidar o calças-curtas encolhido na cama. O medo das sombras, com o passar dos anos, sumiu. Mas o medo perante a dúvida, por certo, o acompanharia das calças curtas ao paletó. Na vida adulta, porém, não havia um interruptor que acendesse a luz de sua segurança e lhe trouxesse de volta a paz e certezas de antes. Definitivamente não.

E de fato, nada mais era como antes, nem mesmo ele. Ele, não se sabendo mais quem, sentia-se como um personagem importado de outro livro, vivendo outro drama, em outro mundo. À deriva. No desconhecido. Contudo, ainda que se sentisse algo de fictício, sabia de sua verdade, de sua realidade. Sabia-se pleno e ardente, por isso vivo. O personagem que lhe fora imposto, portanto, não partia em busca de um autor que lhe conferisse vida e sentido – como numa trama pirandelliana. Seu desejo, como nos tempos da calça curta, era tão somente o de um mundo onde pudesse atuar.

Era um homem insólito.


Quarta-feira, Julho 18, 2007


Tomado por angústias e tensões inerentes à sua própria condição humana, o homem sentia-se só, abandonado e vazio quando, percebendo a falta do papel higiênico, concluiu que o mundo era mesmo uma merda.



Terça-feira, Julho 17, 2007


AS PALAVRAS
SÁBIAS DO
SENHOR
PLAYMOBIL....... (11)


"Mulher que vasculha o bolso do marido
planta prova contra si mesma"


Segunda-feira, Julho 16, 2007




Eu odeio Millôr Fernandes.




Eu gosto do futebol argentino.

Sábado, Julho 14, 2007


Vez por outra nosso Fundo de Quintal Literário trará até vocês algumas das melhores postagens de outros blogs, procurando, assim, superar suas próprias limitações criativas e, sobretudo, homenagear as mentes em atividade na rede. Assim, dando prosseguimento à série, um post original de:


Eduardo Bartolomeu Simpson





Réquiem para um hímem

para Dom Eugenio Sales e Lucia Esparadrapo


I- INTROITUS

Querida, querida
não fique arrependida.
É tudo tabu, tudo preconceito.
E, além do mais,
dá câncer.

II- KIRIE (morreu uma criança)
Salve!
Nasceu uma fêmea,
que vai sorrir para o mundo,
vai amar um, odiar outro.
Salve esta anca!
Salve esta potranca!


III- SEQUENTIA
A paixão armazenada na varanda,
os beijos mordidos,
o ventre ao contato íntimo,
os sonos irrequietos,
os sonhos molhados,
a expectativa da novela,
a mão que desliza,
o ritmo taquicárdio,
a masturbação,
o desejado orgasmo.


IV- OFERTORIUM
Esta singela pelinha
eu a ofereço
aos jesuítas, às franciscanas,
ao Imposto de Renda,
ao meu inesquecível pai e
à minha idolatrada mãezinha.


V- BENEDICTUS
Bendito seja este corpo virginal!
Bendita esta boca inocente,
cujos dentes
fazem cócegas
no meu pau.


VI- AGNUS HÍMEN
Que retira os pecados do mundo!
Que fortalece o espírito frágil e
resgata madrugadas insatisfeitas!


VII- HOSANA
Hosana nas alturas – do gozo!
Hosana nas loucuras – da cama!
Hosana, Hosana, Rosana!


VIII- GRANDE FINALE
Querida, querida
não fique arrependida.
Lembre-se que sou seu amigo,
que estou aqui para o que der (principalmente)
e vier.
Anote meu telefone.
Vamos todos em paz!


Contos, poemas e reflexões canalhescas
como você nunca viu só no

Contos da Puta Velha

Quinta-feira, Julho 12, 2007

Contos de Quinta...

Dulcinéia

Na cidade feia e suja armada de concreto e cinza andava um homem igualmente feio e sujo, concretamente cinza, ziguezagueando invisível por entre esquinas, crimes e dramas alheios. Seus olhos fundos de perdição diziam muito mais sobre si mesmo que os lábios purulentos e a língua fétida de álcool e maledicências poderiam revelar sem trair, com palavras desconexas, a razão de seu degredo.

Certamente nenhum folhetim jamais tratara assim de seu mal e justo por isso eram poucos, talvez nenhum, os capacitados a reconhecer naquele dejeto humano o retrato em preto e branco do amor, marcado em seus contrastes de claro e escuro pela desilusão irreversível do abandono. Não, não havia espaço para sua história no colorido pastel do romantismo nem sombra que encobrisse sua forma distorcida de culpa e falta pela mulher perdida. Encontrava-se em um beco sem saída e, assustando os gatos, foi ao chão tamanha era a loucura.

Era um pedinte, sobretudo de emoções. Após perdê-la, no segundo posterior, já percebia sua vida declinando e, como soubesse de um antes e depois derradeiro, via seu futuro supostamente vibrante escorrer por entre os dedos em uma mistura fugidia que congregava falta de vontade e falta de razão. Como de fato se provou, o desleixo por si mesmo levou o dito homem a uma extrema solidão que, ironicamente, estava submersa em um mundo de transeuntes, automóveis e hostilidades no qual sobrevivia a esmo.

Entre buzinas, xingamentos e palpitações, a metrópole urbana parecia compor a trilha sonora de sua vida como uma ode aos caos na qual imperava, entre agudos ferinos, o tom grave da ausência e da falta de sentido. Vez por outra, quando via singrar em pleno céu a lua dos namorados, escutava o nome de sua amada nos assovios noturnos do vento e pensava ser ele o verdadeiro cantante, em busca de versos que levassem até ela sua voz melancólica e sua mensagem de perdão.

Foi quando acordou subitamente e não acreditou que tudo tivesse sido apenas um sonho e que a mulher era sua, outra vez. Uma onda de adrenalina invadiu aquele corpo dolorido enquanto uma onda de alegria dilacerou aquela mente embotada pela tristeza e confusão. Levantou-se eufórico e, cantarolando o nome de sua eterna amada, pôs-se a caminhar pela avenida na direção de seu destino.

Para ele o momento era de regozijo, de alívio e, sobretudo, de reencontro consigo mesmo. Para os transeuntes habituados com o local, contudo, era apenas mais um dia no qual o mendigo maluco acordava e saía pelas ruas gritando o nome "Dulcinéia".


Quarta-feira, Julho 11, 2007





... Xuxa era só para os grandinhos.


Terça-feira, Julho 10, 2007

Livros, Discos e Sei Lá Mais o Quê # 11

Disco Indicado: PINO SOLTO, VOLUME 01

Amigos do FQL, hoje nossa famosa série cultural traz até vocês um pouquinho do que há de melhor no universo musical underground nacional: o disco Pino Solto Vol. 1. Por razões absolutamente compreensíveis, muita gente torce o nariz para o cenário alternativo da música brasileira, repleto de jovens sonhadores e de canções ruins. Felizmente, no caso desta banda carioca de nome pitoresco e eloqüente, a qualidade é uma aposta certa e envolvente.

Formado por David Aguiar (vocal/letras), Leonardo Villas-Boas (guitarra/produção) e Tiago Coutinho (bases/programação eletrônica), o grupo desenvolve em torno de um projeto musical coerente e descontraído uma nova estética de pensamento e um hibridismo sonoro que vão muito além dos padrões atuais encontrados no repetitivo mercado fonográfico de hoje. Raps, canções de ninar, sambas e rocks permeiam a atmosfera do disco que, por sua vez, brilha ainda mais nas composições sagazes e divertidíssimas de David.

Vale muito a pena conferir o álbum e, só para se ter uma idéia, baixar músicas com títulos impagáveis como Joãozinho e Maria; Lili Cara Pintada; Maconhecida Minha; Uzomi; O Olho que Tudo Vê; Rato de Orelhas Redondas; Romântica; Mabeck e Bandido Moderno, cuja letra reproduzo aqui e agora:

BANDIDO MODERNO

Bandido moderno usa terno
usa caneta como faca
tem canal no Inferno
só tem amigo artista,
empresário, deputado
e outros vigarista.

Bandido moderno anda na moda
Bebe wisky 12 anos
pede gim com soda
conhecedor de vinho
sapatinho de couro
e o colarinho de linho.

Tem gosto americano
bandido moderno só anda no pano
domina a norma culta
da língua portuguesa
e da língua das puta.

Devoto religioso
com sua fé acredita
que não é criminoso
bandido coletivo
rouba o povo
se esconde
e continua vivo.

E o ciclo é certo
não é preciso chegar perto
pra ver bandido moderno
metendo a mão no povo
e guardando no terno.


Para ouvir e baixar gratuitamente todas as músicas do Projeto Pino Solto, além de conhecer um pouco mais sobre a história da banda e seus componentes, é só visitar o site da Trama Virtual clicando AQUI. Para assistir os vídeos no Youtube e participar da comunidade Pino Solto no Orkut, é só clicar nos links oferecidos no lado direito de nossa página virtual.

Segunda-feira, Julho 09, 2007


La dame en noir

Consumida por pensamentos e taças de vinho, entregue à histeria momentânea da falta, ela, que sempre se sentira dona da situação, senhora de sua própria vida, começava a dar-se conta de que jamais fora independente de fato. Pensava nele, o maldito, e era incapaz de evitar a angústia dilacerante que lhe varria o corpo e deixava sua carne trêmula de ansiedade e fraqueza.

A falta que ele fazia preenchia sua vida de um vazio por si só tão volumoso que, nos momentos de rara felicidade e naqueles de eterna dor, era esse nada, justamente, que a tomava e a tornava por inteira uma escrava de sua eterna lembrança. Vinte anos juntos e tudo o que conseguira fora uma relação tão repleta de vícios que não seria exagero dizer sobre ela mais um hábito mortalmente estabelecido que uma escolha realmente prazeirosa. Caíra doente, inclusive, um sem número de vezes nos últimos tempos em que teve ele ao seu lado mas, cega de desespero, só pensava em reencontrá-lo ao menos uma vez mais.

Suzy ainda não sabia, porém, naquela noite quando saísse, após duas longas semanas de privação, ela enfim cederia e voltaria novamente a fumar.


Domingo, Julho 08, 2007



"O que não mata engorda"


Sexta-feira, Julho 06, 2007


AS PALAVRAS
SÁBIAS DO
SENHOR
PLAYMOBIL.............(10)



"O ser humano é o único animal
com a capacidade de se
animalizar"

Quinta-feira, Julho 05, 2007

Contos de Quinta...


O Bom e Velho
Heterossexual
Masculino

Para Gigi.





Esta é uma coluna basicamente dedica à instrução das mulheres sobre as manifestações de vida de um bom e velho heterossexual masculino. Não quero dizer com isso que sua leitura não seja indicada aos homens de plantão que, durante sua pesquisa sobre pornografia na internet, acabaram caindo nesta página virtual sem mulheres nuas. Para estes bravos exemplares da boa e velha heterossexualidade masculina o material publicado aqui é, sem dúvida alguma, de substância tão corriqueira quanto é, para a palma de suas próprias mãos, a composição de seu próprio esperma.

Logicamente, se você me pergunta “o que é um bom e velho heterossexual masculino?”, presumo que seja do sexo feminino ou que, na melhor das hipóteses, ainda não percebeu que joga no time “errado”. Nós, bons e velhos, simplesmente agimos por instinto e não falamos muito a respeito de nós mesmos. Aliás, diga-se de passagem, “conversar”, “explicar”, “se abrir”, são verbos que não se encaixam em nosso perfil.

Esta coluna, ao discutir comportamentos típicos dos bons e velhos, é quase uma mostra de sensibilidade e, assim sendo, um arranhão na boa e velha imagem heterossexual. Contudo, explicada em nossa boa e velha linguagem, a revelação de tais angústias deixa de ser comprometedoramente sensível para se tornar um bastião de nossa imutável estirpe.

Bem, como introduzi tudo assim de forma curta e grossa, gostaria de esclarecer que a discussão de hoje se concentra na boa e velha comunicabilidade heterossexual masculina e seus principais vértices temáticos. Inicialmente, devemos levar em conta fatores bastante simples: homens falam pouco. E homens nunca falam sobre homens. Homens só falam sobre mulheres e viados e, quando falam de homens, é para acusá-los de serem viados.

Sim, somos realmente seres muito simples, por isso somos tão contidos. As mulheres, por outro lado, são mais complicadas, quer dizer, complexas, e por isso falam pelos cotovelos. A grande verdade é que nós, bons e velhos, não perguntamos. Nós presumimos. Por isso não pedimos informação na rua e nem gostamos de debater nosso relacionamento. Nossa carga de responsabilidade se esgota na assinatura do cheque – ato solitário e mudo – e nunca ousa adentrar, de fato, a seara do planejamento. Nós, bons e velhos, odiamos vendedores de loja justamente por isso. Pelo excesso de comunicação e comprometimento. Não queremos “bom dia, senhor” nem sorrisos ou sugestões. Queremos apenas trocar uma quantidade de dinheiro por um blusão verde e só – e queremos o direito de chamá-lo de blusão!

Mas existe algo que nos torna eloqüentes e capazes de articulações sem fim, condensando, de uma só tacada, toda a base de nossa filosofia de vida: o bom e velho humor heterossexual masculino. Não se encontra uma única rodinha de bons e velhos em que não predomine este tipo peculiar de comunicação, cuja base fundamental é o binômio vigilância/duplo-sentido. É preciso dizer, inclusive, que a força desta dinâmica é tão feroz que, uma vez instaurada, deixa o ambiente sob um constante estado de tensão no qual ninguém se preocupa com nada mais que não seja “evitar dar mole” para o outro.

Este interessantíssimo modus vivendi é tão antigo – daí o termo “bom e velho” – que remonta, de fato, aos tempos pré-históricos. Recentes estudos demonstram que o processo da fala se iniciou justamente por conta dos impulsos heterossexuais masculinos (nesse tempo “bom e jovem”) manifestos nos primeiros homo sapiens sapiens. Tal fato “deu-se” quando na Terra ainda preponderava o homo erectus – homossexuais de pau duro que dominavam o planeta há cerca de trinta milhões de ânus atrás – e os primeiros bons e velhos sentiram vontade de se manifestar a respeito de seus estranhos comportamentos.

Foi quando nosso “pai ancestral” conseguiu articular o primeiro “hum...” (que hoje em dia vem acompanhado de um “sei não, hein...”) ao ver um homo passando serelepe que, finalmente, o homem aprendeu a se comunicar por meio de signos linguísticos complexos e deu os primeiros passos em direção às piadas de viado e à construção de toda uma sociedade dinâmica e próspera, pautada em pauladas na cabeça da mulher amada, carne assada e arte viril em cavernas.


Sim, realmente o mundo mudou muito desde a "Era de Ouro Pré-Histórica". Mas somos seres muito simples e fiéis aos nossos proclames. Somos resistentes. Somos imutáveis. Somos bons e velhos heterossexuais masculinos.


* texto de Omar Kassin, o Turco do Bigode. Não nos responsabilizamos por suas opiniões. Em caso de insulto, entre em contato com o Sr. Olavo Lebre Cabrito - o advogado das celebridades. Ou simplesmente leia o MANIFESTO PELA IRONIA repruduzido no fim desta página. Obrigado.

Quarta-feira, Julho 04, 2007

Ei jovem,
o Turco do Bigode
quer falar com você!!!


Olá amigos, meu nome é Omar Kassin e sou conhecido como Turco do Bigode. Para quem não sabe, sou um jovem estudante de comunicação da Turquia que, tendo o visto vencido, recebeu uma nova oportunidade do Sr. Lyra para trabalhar como imigrante ilegal aqui no Fundo de Quintal Literário. Amanhã finalmente estréia minha coluna, intitulada "O Bom e Velho Heterossexual Masculino" e conto com a presença de todos vocês, sobretudo das mulheres - para quem este espaço educativo foi concebido.
Até amanhã!


Ode a Cappettino de Araújo


Vai homem,

vai em busca do que é teu,

corre atrás do teu tesouro,

desmitifica tua quimera.


Vai homem,

vai além da tua quimera,

vai e atesta o que é teu,

vai e traz o teu tesouro.


Vai homem,

vai e goza teu tesouro;

vai e faz novas quimeras,

do que pensas ser só teu.


Vai homem,

vai;

que a vida não espera

pra recomeçar.

Segunda-feira, Julho 02, 2007

Oito Anos


Minhas férias:

Esse ano as minhas férias foram muito legais. Papai levou a gente para a fazenda do Vovô e eu brinquei todos os dias. Mamãe brigou comigo por causa de um sapo que levei para dentro de casa. O nome dele era Rogério. Lá fazia muito sol. Na fazenda tinha um cachorro, um rio e um monte de cavalos, vaquinhas e bois. Também tinha uma cobra verde e feia. Ela picou meu irmão e ele agora mora com Papai do Céu.

Domingo, Julho 01, 2007

"O futebol é uma caixinha de surpresas"

Sábado, Junho 30, 2007


Vez por outra nosso Fundo de Quintal Literário trará até vocês algumas das melhores postagens de outros blogs, procurando, assim, superar suas próprias limitações criativas e, sobretudo, homenagear as mentes em atividade na rede. Assim, dando prosseguimento à série, um post original de:


Viviane Duarte


Pra quê tomar um porre

pra afogar as mágoas, meu caro?

Se elas sabem nadar tão bem,

em águas profundas,

lágrimas de olhos rasos,

na saliva doce e no suor amargo

que desagua em vocês, cascatas,

quando se encontram?


Pra quê tomar um porre

pra afogar as mágoas, meu caro?

Engole seco,

essa secura infinita,

que essa sede nada mata,

que é vã a tentativa

de curar a ferida,

de extirpar esse mal

num só golpe

ou seria num só gole?


Pra quê tomar um porre

pra afogar as mágoas, meu caro?

Vá pra casa,

que amanhã o ciclo continua,

e segue seu rumo em zigue-zague,

hesitante, cambaleante,

o rumo natural das coisas.


Uma prosa aconchegante e uma xícara de café.
Para saber o que a mineira tem, tire também sua

Sexta-feira, Junho 29, 2007




Desde os tempos mais remotos da humanidade, quando então o homem era menos que um macaco imberbe, a apropriação do fogo é algo de suma importância para a dinâmica e perpetuação de seu modus vivendi. Nesse sentido, se é possível crer em tal afirmativa, outra, desta vez acessória, faz-se imperativa: nem sempre este tipo de apropriação se dá pela via do consenso, isto é, não raro o fogo se constitui em objeto de desejo passível de usurpação por terceiros.

O registro mais antigo de fogo roubado pode ser constatado nos escritos da mitologia grega, mais especificamente, na lenda de Prometeu. Foi ele quem presenteou os homens com a chama afanada do Olimpo, fato que, por sinal, se trouxe boaventurança aos homens, desagradou bastante Zeus. Contudo, a despeito da riqueza e ilustração que traz toda e qualquer reflexão competente sobre as mitologias em geral, diria que é no contexto da modernidade, ou “pós” – como queiram os chatos – que reside o tema central de minha modesta teoria: o fluxo isqueiral.

Analisando a práxis cotidiana de uso do isqueiro, é fácil perceber as nuances que caracterizam seu fluxo. Em primeiro lugar, gostaria de salientar a profunda demanda do objeto em contextos de sociabilidade, sobretudo naqueles em que o ambiente se encontra liberado para a utilização dos fumos mais diversos. Justamente nesses espaços é que o fluxo impõe suas leis naturais com maior força e vigor, tornando a manutenção da pequena peça acendedora uma tarefa tão árdua quanto a empreitada de Hércules, cujos 12 trabalhos representam, prometo, a última referência mitológica que levanto neste texto.

Retomando o tema central, ressalto que a teoria do fluxo isqueiral está pautada em uma única e básica premissa: as interações estabelecidas entre usuários de fogo implicam, quando do uso do isqueiro, em um fluxo constante de apropriação e reapropriação do mesmo. Ainda, que este fluxo não só obedece a leis naturais como também influencia socialmente a aceitação de sua inexorabilidade pelo grupo de usuários em questão.

Desta feita, pode-se dizer que a força do fluxo é capaz de criar nos indivíduos uma espécie de habitus primário no qual a rotatividade do isqueiro é naturalizada a tal ponto que, mesmo que descoberto um destes objetos (outrora perdido) sob a tutela alheia, salvo em raríssimas exceções, o possuidor anterior aceita tacitamente a apropriação do outro. Porém, fato ainda mais intrigante e, sobretudo, confirmador das leis do fluxo, é o irônico resultado que se apresenta, muitas vezes, sob a forma de um novo isqueiro que, aparentemente do nada, vem em substituição daquele perdido na mesma noite.

Como não pretendo esgotar os limites analíticos da Teoria do Fluxo Isqueiral neste modesto ensaio, gostaria de finalizá-lo com uma pequena digressão sobre uma das poucas exceções que desafiam sua imutabilidade. Para tratar deste assunto buscarei na empiria do mundialmente famoso isqueiro Zippo as razões de meu argumento.

Afora o Zippo, todos os demais isqueiros se perdem por conta do falso caráter de instantaneidade que circunda o empréstimo. Na qualidade de bem durável mais propenso ao desaparecimento, esta pequena peça prometeuniana vive o constante perigo do extravio tanto em virtude de sua generalidade tipológica quanto por seu modesto valor de mercado. Já o Zippo, por outro lado, tem sua integridade resguardada por situar-se em pólo oposto ao destas caracterísitcas e, portanto, representa um dos maiores focos de resistência às leis do fluxo. Assim é que, congregando, por um lado, uma especificidade e singularidade próprias de sua estirpe e, por outro, o alto custo relativo a tamanha exclusividade, o Zippo desperta por parte dos pedintes e do detentor uma atenção redobrada e um senso de responsabilidade típicos de uma saudável sociedade capitalista.

Como bem salientei, outros possíveis caminhos encontram-se abertos na Teoria do Fluxo Isqueiral e espera-se que sejam desenvolvidos por novos pesquisadores dentro em breve. Certo é que, por mais sofisticadas que sejam as inúmeras interpretações sobre ele, sem dúvidas a melhor forma de proteger seu isqueiro (sem com isso tentar lutar contra o fluxo) é pedir um outro isqueiro emprestado, ainda que se possua um. Com esta atitude terá garantida a presença de ao menos uma das peças acendedoras, provendo, ao mesmo tempo, suas necessidades humanas e a lei natural do fluxo isqueiral.

Quinta-feira, Junho 28, 2007


Hoje o Fundo de Quintal Literário não apresenta seus Contos de Quinta, pois morreu, nesta madrugada, o poeta Bruno Tolentino - um dos maiores nomes da literatura no Brasil contemporâneo. Pouco conhecida até tempos recentes, sua obra começou a se difundir em 1994 para um círculo bem mais amplo de leitores, quando então a Companhia das Letras editou o primeiro volume de sua Obra Poética, As Horas de Katharina (São Paulo, Companhia das Letras, 1994). Diferente da maioria das antologias poéticas, o livro não consiste em uma coletânea de poemas isolados, mas é uma obra de concepção integral que retrata a escalada interior de uma freira em direção ao conhecimento de Deus. Celebrado como "um dos mais altos cumes da nossa inspiração poética" (Antônio Houaiss), As Horas de Katharina recebeu o Prêmio Jabuti 1995 e teve sua edição rapidamente esgotada. Tolentino conquistou pela segunda vez o prêmio em 2003 com o livro O Mundo como Idéia e, em 2007, foi novamente selecionado como um dos dez finalistas do Prêmio Jabuti com seu último livro A Imitação do Amanhecer, cujo trecho reproduzo logo abaixo.

(leia os Contos de Quinta aqui)


A IMITAÇÃO DO AMANHECER

II.95
O ser que escolhe o exílio e anda solto no cosmos
atrás do encanto seu comparsa, quando tem
nos intervalos osculados, nesses ósculos
de epifania, uma alegria que lhe vem

de desfolhar-se e repetir-se; ao dar-se a quem
vem contrapor-se à sucessão de instantes póstumos
o pobre inunda-se de luz. É assim que, a sós
com aquele corpo igual ao dele e ao de ninguém,

o ser confunde-se ao seu duplo. Tu compunhas,
Alexandria, aquela cena refletida,
aquele enlace da metade repetida

como as molduras dos espelhos – e os rascunhos
do ser completo, ou seja, as duas testemunhas
de um mesmo encanto, protegia-as, mas da vida.

II.96
E ele pairava, demorava-se em meu peito
horas inteiras... Mas passava pelo fundo
de cada abraço como um dissabor do mundo,
o mundo se afrouxava como um laço desfeito,

Alexandria separava aquele leito
do mundo inteiro. Há nas promessas do infecundo
um destacar-se gradual, de moribundo
persuadido de que o nada é mais perfeito.

Há como um nada enguirlandado de mistério
no enlaçamento de metades sem motivo;
é sem futuro e sem passado o beijo estéril;

e, intemporal porque há um único hemisfério
nesse universo, o amor do mármore mais vivo
(a estátua é toda do instantâneo) é redutivo.

II.97
E éramos vivos como os mármores de entalhe,
incrustações da pele lisa na luz rasa
e, confundidos um ao outro como a asa
ao seu vazio, povoávamos um vale

petrificado de esplendores. Ao tocar-lhe
a estátuária magnífica, de brasa
e bronze vivo, eu penetrava numa casa
abandonada... É necessário que a alma fale

a língua morta dos heróis de Queronéia,
para tentar dizer, talvez nesse dialeto
de dois corpos tomados à perfeição da Idéia,

aquele mundo estranho: eterno, longe, ereto.
De estatuária tumultuada, mas alheia.
Cheio de sol, mas como a rosa-do-deserto.

Quarta-feira, Junho 27, 2007

Está na hora de perdoar
E de abrir o coração
Por um mundo solidário
O Fundo de Quintal Literário
Pede sua atenção:


HUMANO
ERRAR
É

Terça-feira, Junho 26, 2007



Morreu, nesta madrugada, J. Edwards,
o anão que interpretou o famoso robô R2D2
na saga cinematográfica Star Wars.




Sim amigos do FQL, os fãs da saga "Guerra nas Estrelas" tem muito o que chorar, pois morreu, nesta madrugada, o famoso J. Edwards, o anão magnata que interpretou o simpático robozinho R2D2. Ao que tudo indica, Little Jay (como era chamado pelos mais íntimos) sofreu uma terrível queda de aproximadamente meio metro, quando então caiu de sua cama durante o sono, quebrou o pescoço e faleceu.

As autoridades investigam se realmente tudo não passou de um lamentável acidente ou se o pequeno grande homem foi empurrado e, assim, assassinado pela esposa, com quem vinha tendo sérias discussões.

Em entrevista os familiares contaram que o corpo será cremado hoje às 15:00 no Crematório de Semi-Celebridades de Hollywood, onde são queimados os nano atores mais famosos do mundo cuja última vontade é a de não protagonizar um enterro de anão.

SAUDADES R2!!!

J. Edwards, rico e famoso

Segunda-feira, Junho 25, 2007


"O tempo não pára"

Sábado, Junho 23, 2007

OS CLASSIFICADOS
INCLASSIFICÁVEIS
DO SR. LYRA




1) Jovem Altruísta
: ei, você que está sozinho, venha conhecer uma gostosa que faz de tudo e sempre quer mais. 118 cm de bunda. 24 hs por dia. 80 reais por 2 hs. Promoção: boquete sem camisinha até o final só 10 pratas!

2) Empresa Financeira:
cansado daquele monte de dívidas?! Então venha nos procurar para resolver já sua situação!!! Troque suas dívidas acumuladas por uma dívida novinha em folha, com juros mais altos totalmente grátis!!!!

3) ONG do Bem
: está na hora de mudar o mundo! Você que é um jovem revoltado, contudo qualificado, pode trabalhar em nossa instituição certo de que nunca será remunerado para isso! E você, que é um rico culpado, junte-se a nós e deixem os diretores da ONG juntarem-se a vocês no mundo das fruições materiais. Também aceitamnos crianças mal-nutridas para figuração em nossa campanha publicitária.

Quinta-feira, Junho 21, 2007

Contos de Quinta...

para Fabrício Fortes

Se a menina tivesse dito sim, teria encontrado mais que uma mulher; teria arrebatado uma cúmplice para todo e qualquer momento, para toda e qualquer ilusão de fim-de-noite. E teriam tido filhos, três ao todo, que lhes trariam conforto na velhice e muita dor de cabeça nos duros tempos precursores. Teriam sido felizes, o mais possível, se é possível fazer tal afirmação sem causar ao menos uma mácula de tristeza no semblante.

Se a banca tivesse dito sim, teria encontrado mais que uma carreira; teria vivenciado uma intensa paixão pelo trabalho e se tornado um físico de extremo valor. E teria proferido palestras, incontáveis, que teriam influenciado determinantemente a vida de pelo menos oito jovens, um dos quais revolucionaria, dezessete anos depois, os fundamentos da dinâmica aero-espacial. Teriam sido bem-sucedidos, ainda que tivessem merecido mais, se é que alguém realmente pode ser mais sem inúmeras subtrações.

Se tivesse dito sim a si mesmo, e se dedicado aos prazeres da pintura, teria encontrado mais que um hobby; teria se deparado com a poesia da vida, a magia das pequenas coisas e a complexidade dos detalhes. E teria se aposentado, e comprado uma casa no campo, onde haveria de colher flores e frutos dispersos, posteriormente impressos em aquarelas de natureza morta. Teriam sido expostos, e assim admirados os tais quadros, se não é mistério que toda arte esconde algo do qual se tem medo.

Mas foi o político quem disse sim à guerra e atravessou, tal qual a bala de fuzil que matou o jovem soldado, todos os planos de uma vida pacífica e tranqüila, que nunca haverá de ser nada para além de um conjunto de incertezas derrubadas numa tarde qualquer de maio.


Quarta-feira, Junho 20, 2007

"Vergonha é roubar e não poder carregar"

Terça-feira, Junho 19, 2007

"Fui a São Paulo e me lembrei de você"

Domingo, Junho 17, 2007



"De médico e de louco, todo mundo tem um pouco"

Sábado, Junho 16, 2007

AS PALAVRAS
SÁBIAS DO
SENHOR
PLAYMOBIL................. (# 09)




"Se a vida é uma merda, então façamos cagadas"

Quinta-feira, Junho 14, 2007

Contos de Quinta...


Poucos nesse mundo mereciam tanto a derrota como ele. Logo ele, que sempre esperou muito da vida, que sempre dela quis mais, sempre assim o quis porque da vida, muito comumente, recebera mais do que o merecido. Quantas vezes ouviu, para seu embaraço íntimo, vozes tantas a parabenizá-lo por suas vitórias, conquistadas, diziam eles, em uma vida tão difícil. Aliás, esse era seu maior problema: nunca achara a vida difícil de verdade, pois, em toda sua jovem experiência, mesmo as dificuldades se apresentaram demasiado fáceis.

Assim, tendo a vida se passado como mero campo recreativo de sua existência, agraciada com generosas surpresas e reviravoltas miraculosas, via na derrota um ente mitológico e, com certo desdém, podia-se dizer que aguardava com curiosidade o momento dessa experiência tão comum ao ser humano. Não que se considerasse realmente alguém alheio ao sofrimento, ao risco da privação; ao contrário, guardara consigo cada detalhe sórdido de sua vida marcada pela precariedade material. Porém, nunca duvidara do teor dessa “injustiça”, assim como jamais se concedera o direito de não revertê-la com toda pompa e glória.

Se é certo que, ao longo de sua vida, fazia o maior esforço possível para não olhar ninguém “de cima”, é mais certo ainda afirmar que jamais encontrara razões para olhar o que quer que fosse “de baixo”. Contudo, de tanto enquadrar o mundo na altura dos seus olhos, acabou se perdendo em miragens.

Sua forma de enxergar a vida era bastante simples e obviamente perigosa, pois que fundamentada na certeza de um passar de anos protocolar, cujos desdobramentos serviriam tão somente para coroá-lo ante tudo e todos. Sob esta orientação, dava por certo que seu estado de privação anterior seria vencido, vingado até, pelo privilegiado entrosamento dos neurônios e sinapses que – tão breve quanto breve é a vida – sem dúvidas haveriam de levá-lo ao triunfo. E empunhava publicamente tais palavras como faz um crente em louvor ao seu deus.

Protegido por essa conveniente ilusão, esse alguém inconformado em ser ninguém acreditava, na realidade, ser um alguém para além, restando à vida tão somente a tarefa de confirmá-lo. Entretanto, a única confirmação que a vida traz consigo, atropelando o bom e o mau; o rico e o pobre; o jovem e o velho; é a confirmação de que viver implica em sofrer, e de que sofrer faz da vida um insólito desafio no qual se ganha com as derrotas.

Quando deu por si abraçou o abalo. Obviamente lamentava muito por ele mesmo, porém, doía mais que tudo a dor de sentir-se um farsante; do constrangimento súbito que sentia em relação a todos, a todos aqueles que lhe deram ouvidos e, candidamente, conferiram algum crédito à imagem que nele encarnava criador e criatura. Para ele, que certa vez afirmara com toda sua convicção não ter dúvidas a respeito de si mesmo, o momento dessa constatação foi tão chocante que implodiu em incertezas.

Muitos dos que se encontravam à sua volta, é verdade, foram seduzidos pelo vigor de sua poética impetuosidade; outros, no entanto, procuraram incessantemente alertá-lo. Ele, por sua vez, só acreditava em si mesmo. Com isso, os caminhos que lhe conduziram ao caos eram tão triviais que, se os confessasse em voz alta, apenas revelaria a debilidade de suas ambições e, por certo, despertaria desprezo nos ouvidos mais próximos. Estava pateticamente entregue, e se sentiu só. Procurou pelo futuro e não viu nada; olhou para o passado e sentiu vergonha.

E naquela noite, como em tantas outras, dormiu um sono sem sonhos, incomodado com o peso da vida sobre seus ombros desacostumados. Dessa forma, quando enfim constatou o abismo existente entre tudo aquilo que imaginava ser e o que ele de fato era, dedicou-se a refletir, reconstruindo passo a passo, com nova perspectiva, a extensão de sua breve trajetória.

Porém, a despeito da busca incessante, das intermináveis noites em claro, das lágrimas ao mesmo tempo conscientes e autopiedosas que derramou em seu próprio nome; apesar do desejo quase infantil de voltar atrás com tudo aquilo, para o seu desgosto uma dura verdade foi cuspida naquela face repleta de questionamentos: sua única grande vitória foi ter derrotado a si mesmo.

Quarta-feira, Junho 13, 2007



Como todos sabem hoje é dia de Santo Antônio, ente divino que, embora de segundo escalão, é mais que popular entre nós, malditos seres humanos de uma figa, pelos seus dotes casamenteiros. Aproveitando o ensejo, resolvi copiar descaradamente uma idéia da genial Karina Goda - que vinha casando poemas em seu blog - e decidi utilizar alguns excelentes comentários (na verdade obras criativas independentes) feitos aqui, no FQL, para realizar um casório literário. Contudo, antes de explicitar as obras em questão, devo agradecer aos seus autores pela troca realizada neste espaço de forma tão espontânea e prodigiosa. Assim, um muito obrigado aos queridos Pakkatto, Karina Goda e Tchello, cujas respostas poéticas reproduzo agora, sem maiores delongas:


* Casando com o texto Sexo e Salvação:


"Eucaristia"

Aproxima-te,
desnudo das vestes
que cobrem tua alma

Estende
as mãos e recebe-me
no calor da tua palma

Sinta
a delicadeza da minha carne
no quente da tua língua

Beba
do meu cálice o fluido sagrado
da nossa eterna aliança

Torna um só nossos corpos
- entrelaçados por amor e fé.



* Casando com o texto Continente Perdido:


"Aye, Aye Sir"

Todo o homem é uma ilha
E algumas viagens naufrágio.
Ainda que viver seja impreciso,
Navegaremos por entre os recifes
Buscando aportar em nós mesmos
Mesmo quando não houver faróis
No lado mais perigoso da alma.

Todo homem é uma ilha
Que se une aos outros homens
Em sua natureza subterrânea.
O vento irá soprar várias canções de despedida.
Tentaremos a longa viagem?
Não é mar ou solidão que nos separam
É só distância.

Içar velas!
Todo leme a estibordo!
O coração comandará este navio agora.
A razão será a nossa bússola
A fé será nosso astrolábio
Firmes na tempestade! Perseverança!
Pois a rota, o mapa e mesmo o destino

Estão, são e moram com nosso capitão.

"Após agora"

Engaiolado na pasta
Setecentos e quatro
A comoção me alça
Ao som de pássaros
Éramos Pangéia
Uma lírica idéia
Antes das ilhas
Autônomas e ridículas
Após agora
Ignoro a bóia
Tanto para o almoço
Quanto para o socorro.

Terça-feira, Junho 12, 2007


- Minha namorada me pediu uma bolsa de 480 pratas!

- E aí, já comprou?

- Disse que era caro e a danada pôs em dúvida meus sentimentos por ela...

- É, o amor consome...

Segunda-feira, Junho 11, 2007


"Faça você mesmo"

Domingo, Junho 10, 2007



"Conhece a ti mesmo"


* dedicado a todos os evolucionistas filhos de Adão.

Quinta-feira, Junho 07, 2007

Contos de Quinta...

Continente
Perdido


Todo homem é uma ilha cercada de silêncio e ansiedade. Uma ilha em preto e branco onde despontam vívidos, na exclusividade das cores, mil e um corais de brilhos e tons sedutores tanto quanto mortalmente cortantes, que tingem os pés de vermelho sangue e lavam a sal as feridas do caminhante.

Todo homem é uma ilha e mira a linha do horizonte. Até onde alcança a vista vê traçado, entre dois pontos flutuantes, uma reta de expectativas ao longe, inalcansável, inatingível, utopicamente eqüidistante do nada e do lugar nenhum. O homem que nela habita olha e, sem sequer molhar os pés, deseja ultrapassar o mar pois sente e sonha seu o continete para além.

O homem se prosta ao sol da ilha e engrossa a crosta escarpada que se desenvolve recobrindo sua pele ultra-sensível. Ele pensa proteger-se, com os sedimentos de sua armadura, do sol e da chuva, dos homens e deuses, conselhos e mandamentos, do sim e dos nãos, enfim, do amargo e mal-cheiroso monumento da vida, cujo sentido só se completa e compreende pelo seu perder cotidiano.

Todo homem é só espinho circundado de perfume e justamente por isso sente medo da aproximação alheia. Ele sabe que o olfalto engana, pois que inebria e carrega consigo um corpo em direção a outro, quando então mesclam-se os odores e a apoteose conjunta declina, mortalmente, para um sem número de perfurações mútuas. Ao final, apenas o cheiro de incipiente putrefação na carne morta.

Todo homem teme, e sofre, e treme, e sonha e traz no cenho a trama de uma vida e o trauma de seu andamento. Na solidão de seus sentimentos, ansioso por compartir, ele cala para que também não ouça e fantasia pelo simples medo do óbvio. Ele isola o mundo de si e deixa partir, dia-a-dia, o pouco que resta de sua beleza nativa, cativa dos trâmites e exigências da terra firme que se encontra no além-mar dos seus sonhos.

O homem se mostra e chora defronte ao espelho d’água onde vê refletidas mil e uma imagens de si mesmo, que brilham no canto escuro de mil e uma outras ilhas igualmente solitárias em suas mil e uma dores particulares tão comuns. O homem brilha em outras ilhas, mira outras linhas e se crê a milhas quando, na verdade, faz de abismo o centímetro que dele separa tantos outros igualmente crentes de uma solidão que consiste, ao final, na única fronteira de um único continente. Talvez perdido para sempre...

Terça-feira, Junho 05, 2007


SEXO & SALVAÇÃO

Sexo é corpo
O corpo é carne
A carne é fraca
E assim vai indo

porém

Salvação é alma
A alma é o divino
Divino é o milagre
Do corpo inquilino

então

Sexo é salvação
Corpo é alma
Carne é divina
E o milagre...

... bem, o milagre é fraco mesmo.

Segunda-feira, Junho 04, 2007

AS PALAVRAS
SÁBIAS DO
SENHOR
PLAYMOBIL.............. (#08)




"O prevenido morreu virgem"

Quinta-feira, Maio 31, 2007

Contos de Quinta...

Para Rapazes
e
Moças

Era o oposto do que era sempre, mas como sempre fizera, refugiou-se em si mesmo. Dessa vez, porém, voltou-se ao interior sem idolatria, piedade ou dureza, pois procurava apenas a razão. E dos esvoaçantes grãos de areia ao seu redor, lépidos eólicos flutuantes, sentado na beira da pedra ele extraiu, sem ao menos se dar conta, a única verdade que pôde: o trânsito era intenso.

Diante dos seus olhos, como miragens da vida real, transitava a própria vida a completar, com o peso caótico de seu balé, não mais o rotineiro movimento de rotação com o qual já se acostumara, mas uma translação completa, repleta de novas outras rotações. E como o vento explicasse a vida tanto quanto os ínfimos grãos de areia expressassem o homem, ele percebeu a magnitude do detalhe tanto quanto a vulgaridade da pintura – e derramou uma lágrima de paixão.

A pedra enegrecida pela gota transparente, que dos seus olhos acabara de cair, fez do ambiente um palco sensitivo no qual destacava-se, como atração meio-mórbida meio-lúdica, um inquieto rabo de lagartixa a pular desgovernado. Desacompanhado do corpo que, um dia, fora sua extensão natural e inconteste, o rabo debatia-se sobre a pedra e nada despertava naquele garoto para além de um certo desconforto com tal luta espasmódica.

Ao seu redor transitavam as nuances do novo tempo, e sufocavam-no as exigências de um novo homem: ele, o que era, já não era o esperado, e o que viria a tornar-se, esse, ainda era inesperado para ele. De qualquer maneira já eram dois naquele um melancólico, vivendo em contradição, sentados sobre a pedra, aos estilhaços de areia, sob os auspícios do vento, reificando com suas ambigüidades o próprio ciclo da vida.

De certa forma, ele acreditava, sofria e vivia naquele momento um drama semelhante ao da lagartixa. Decepado contra a vontade, assistia impotente parte de si debatendo-se, desgovernada, desesperada, descrente. Por certo a lagartixa sofria com a perda do rabo – pensou – sobretudo porque dela era parte concreta e, sendo assim, este abandono só poderia lhe trazer sofrimento. Concluiu que era como a pobre lagartixa, mas faria de tudo para conservar-se por inteiro, como sempre fora. E sorriu satisfeito.

Do colorido cego que transbordou de seus lábios, contudo, fez-se o cinza na pedra escura e, a brilhar cintilante e solitária, aleijada, estava ela, a lagartixa. Olhando para o homem a sua frente, gélida e impávida, perguntou porque ele insistia tanto no que já ficara para trás, se contorcendo pelo que já passara e não havia mais de retornar. E subitamente foi embora.

Quando se levantou da pedra vislumbrou no horizonte toda a dor e satisfação que lhe aguardavam. Ao retesar os músculos, e finalmente movimentar o corpo, pela primeira vez sentiu-se consciente de sua jornada e, sobretudo, dos sacrifícios que impunham percorrê-la. Deu o primeiro passo e, ao seguir adiante pelos caminhos da vida, tão logo entendeu que, diferente do que pensava, no lugar da própria, ele era mesmo o rabo da lagartixa.

Quarta-feira, Maio 30, 2007


"Antes só que mal acompanhado"

Segunda-feira, Maio 28, 2007



A VOLTA PARA CASA

A bomba já fora disparada e o fim parecia próximo. Contudo, mesmo antes do estrangeiro executar seu ataque, aquele homem temeu e tremeu pelo pior. Segundos antes de tudo acontecer, olhou nos olhos do adversário, repletos de um oceano de distância cultural, e pôde localizar a devoção precisa de sua ação, a gana da vitória e a loucura aterradora característica daqueles que nada têm a perder. Tinha os músculos retesados, os dentes semi-cerrados, o ouvido surdo de um silêncio volumoso que se expandia à luz das expectativas; tinha, enfim, o segredo da vida e da morte em suas próprias mãos, escorrendo por entre dedos vacilantes escondidos sob a luva.

Do alto, em pleno vôo, teve ainda chance de mirar o verde da grama que se estendia lá embaixo, tal qual um tapete que o receberia, em brevíssimo tempo, com o abraçar idômito da queda livre e seu impacto derradeiro. O estrangeiro também aguardava e, naqueles milésimos de segundo que pareciam correr imóveis em seu fluxo constante, pôde olhar pela segunda vez no fundo de seus olhos em fúria - e só encontrou o seu próprio medo. Quando a bomba finalmente explodiu e um bum de vozes e gritos confusos ecoou por todos os lados, deu-se conta do pior.

Sofreu um gol de falta e a Copa do Mundo terminava ali para sua seleção.

Domingo, Maio 27, 2007


"Quem espera sempre alcança"

Quinta-feira, Maio 24, 2007

Contos de Quinta...

De: Nestor
Para: Humanidade
(carta 02)


Me chamo Nestor Loureiro e conforme expliquei a vocês (malditos seres humanos de uma figa) em minha primeira carta, tenho o desejo e a convicção de que os homens serão varridos do planeta por um cataclisma ambiental logo um dia após a minha morte. Entretanto, ser humano que sou desde 1910, penso dia-a-dia, cada vez mais, no fim dos dias meus e, logo, também de todos os habitantes do globo. E ao pensar nisso, de forma mais que contraditória, sinto pena e raiva desses seres pensantes e irremediavelmente irracionais que vivem a negação de seu próprio fim, quando não passam de meros animais pretensiosos.

No entanto, diferente de nós, os outros animais não possuem consciência da finitude. Estão alheios ao término irremediável da vida, ainda que sua luta diária pela sobrevivência, aos olhos de um iludido humano, pareça ser um recado diário do fim. Nós, na qualidade de seres autodivinizados, inconformados com uma morte comum, com a fome dos vermes e a decomposição orgânica, sacrificamos nossa única certeza, que é a de se estar vivo, em nome de uma incerteza supostamente melhor. E eterna.

O que importa mesmo dizer – e peço perdão por tornar explícita essa digressão sem contexto – é que minha maneira de lidar com o problema da finitude é bastante simples e em perfeita consonância com meu método filosófico. Não acredito em nada para depois, não creio viver uma nova vida em um belo campo de golfe, cercado de anjos e outros seres assexuados, capazes de realizar uma série de façanhas tão incríveis – e tão afastadas da minha condição de simples habitante do paraíso – que resultaria, sem dúvidas, em uma eterna fonte de humilhação. Quase como viver em uma ditadura militar latino-americana financiada, treinada e legitimada pelos Estados Unidos.

A outra opção, se me lembro bem, também não é das mais agradáveis, pois resultaria em passar o resto da eternidade trabalhando em uma espécie de mina de carvão, comandada por um sádico troglodita chifrudo que não pensa duas vezes em botar no seu cu. Bem parecido com o capitalismo, eu diria, mas sem os atrativos de tudo aquilo que te enfiou naquele lugar: o sexo, as drogas, certas tendências políticas, a bebida e o cigarro, a difamação, o palavrão, a violência, o ócio, o vício, a vaidade, a heresia, a insensatez, a homossexualidade, a gargalhada, as segundas e terceiras intenções, a rasteira, a água fria, o sol raiando... em resumo, o controle e a abstinência total. Seria como viver da maneira como prega a Igreja e o empresário, só que levada a cabo pela força do demônio.

Assim, ciente de que a vida é uma experiência única, finita e insensata, procuro fazer jus a todo o esforço evolutivo que a natureza realizou para me conceder a única graça que um ser humano recebe, que é a da própria vida. A mim parece tão simples, mas infelizmente essa é a única dádiva da qual temos conhecimento e que, entretanto, é renunciada por um grupo espetacular de pessoas, ao sabor de seu arbítrio e ao léu da imensidão.

Eu, como já disse, não acredito que haja um ser superior e observador que guarde consigo todos os meus predicados e todos meus defeitos (e para quem os contará?). Meus atos valorosos e os fatos mesquinhos. O lobo na pele do cordeiro e o cordeiro na pele do lobo. Não me deixo possuir por um juiz divino ou júri de homens. Possuo, sim, um público interno. Ele é tão vasto e diverso quanto o número de células, e neurônios, e átomos, e prótons, e elétrons, que vibram e multiplicam-se incessantemente em meu favor. Eles, nesse exato momento, gargalham – alguns vociferam – da estupidez comum, e deles têm pena. Eles, nesse exato momento, esperam apenas pelo seu próprio fim.

Os homens não merecem a vida, nem aqui, nem acolá, pois só fazem destruí-la com seus anseios sobre-humanos e seu comportamento vulgar. Entretanto, caso me encontre absolutamente errado, receberei mais do que pedi e viverei, sob nova forma, outras oportunidades de explorar ao máximo a tal nova existência – ainda que seja ao lado dos malditos anjos assexuados ou do capataz capitalista.

O alento é que enquanto houver consciência, há resistência. Para quem valoriza a mente já basta. Já para os que curtem sapatos...


* para ler a primeira carta de Nestor Loureiro clique aqui.

Quarta-feira, Maio 23, 2007



Eu gosto do José Wilker.




Eu odeio banco de ônibus quente.



Domingo, Maio 20, 2007


"Existem mais mistérios entre o céu e a terra
do que pode supor a nossa vã filosofia"

Sexta-feira, Maio 18, 2007


AS PALAVRAS
SÁBIAS DO
SENHOR
PLAYMOBIL............... (# 07)



"A vida é dura e por isso sempre tomamos no cu.
Nossas escolhas, contudo, nos levam
à areia ou ao KY"

Quinta-feira, Maio 17, 2007

Contos de Quinta Especial...

Cristiano, 2001
(extraído do diário secreto de T. Botelho Pinto)

Enquanto a Florence se debulhava em lágrimas diante de uma pilha gigantesca de garrafas de água, caixas de refrigerante e cerveja, me ocorreu a possibilidade de que poderia ter sobrado, também, uma ou outra latinha de Red Bull. Num arroubo misto de falta de superego com utilitarismo lúdico, revelei minhas intenções pra ela e recebi em troca, como já era previsível, um olhar misto de incredulidade desesperada com ódio circunstancial. Via-se claramente que, por nossos humores distintos e polarizados, a festa tinha sido uma doideira só. E foi, como naturalmente acontece quando é o sangue quem macula a corrente alcóolica.

De fato, tudo tinha sido absolutamente incrível até aquele momento: mais de 300 pessoas animadas e satisfeitas, entre elas muitos de nossos amigos, uma lua cheia estonteante, além da boa música que parecia embalar o espírito altruísta da noite...

O caso é que a festa tinha o objetivo fundamental de arrecadar fundos para um orfanato e foi, a princípio, idealizada como uma simples reunião de amigos dispostos a ajudar a miserável instituição. Porém, uma vez que eu tinha sido condenado pela justiça a prestar serviços comunitários e, por conta disso, obrigado a ser um dos organizadores do evento, propus uma grande festa, ambiciosa e arriscada, mas certamente compensadora. Obviamente os recursos eram escassos e não foi sem muita resistência que os convenci a pegar um pequeno empréstimo para realizá-la.

No afamado dia, porém, o público presente indicava, para nosso alívio e felicidade, a inevitabilidade do mais absoluto sucesso. Mesmo Florence, a ingênua e prestativa psicóloga do orfato que sempre me olhara com desprezo, sorria e insinuava, ao som do funk, que hoje seria o o dia de “nos conhecermos melhor”. A gatinha estava no papo.

Sei lá, talvez fosse a malévola contribuição do álcool no organismo a razão de nossa descontração catártica durante toda a festa. Do que tenho certeza e não posso fugir, contudo, é o fato de que ter ficado tão doido assim ao longo da noite me salvou de algumas tensões inerentes à organização e, em especial, de padecer da angústia relacionada às expectativas de sucesso, menos simbólicas e mais financeiras, que giravam em torno daquele arriscado evento. Indiscutivelmente, a excentricidade de meu comportamento causou no restante dos organizadores a sensação de que, para o bem geral, era melhor não pedir nada pra mim e, se possível, até fingir que não me conheciam. Assim se deu nossa interação e ninguém fudeu a vida de ninguém durante as seis horas em que a festa rolou.

Bem, na verdade mesmo, é preciso confessar que realmente algumas pessoas se fuderam. Isso de fato foi comprovado lá pelas tantas, quando tudo já se encaminhava para o fim, enquanto eu e Florence nos encaminhávamos para o segundo andar da festa. Com o intuito de compartilhar o triunfo da festa junto aos outros organizadores, fomos diretamente para o bar central, onde um grupo já estava reunido. Demoramos a perceber o motivo do contraste entre nossa imensa alegria e o ar de decepção que tomava conta do rosto de todos. Foi quando, de repente, sem ao menos trocarmos uma só palavra, a ingênua e alcoolizada Florence desviou o olhar para o canto esquerdo, constatando horrorizada a enorme pilha de garrafas d’água, caixas de refrigerante e também de cerveja, tristemente empilhadas no fundo do salão. Ao nos explicarem o drama, isto é, que a bebida encalhara por conta de um erro grotesco de cálculo, minha pequena caía no choro enquanto eu agradecia aos céus o fato de que, naquela noite, o primeiro a se fuder não tinha sido nem eu nem ela, mas apenas algumas pobres criancinhas sem pai nem mãe.

Diante da merda já grassada não tive outra escolha além de partir, eu e minha doideira, para o bar do terceiro andar, onde poderia haver alguma latinha de Red Bull encalhada. Claro que para isso fui obrigado a abandonar momentaneamente a chorosa Florence, além de, com o coração partido, ter que ignorar o hercúleo trabalho que vinha sendo feito pelos outros organizadores naquele exato instante – subindo e descendo desesperadamente, do segundo para o primeiro andar, com as intermináveis sobras do bar nos seus cansados ombros. Parti repleto de orgulho por meus companheiros, certo de que todos sabiam da minha presença em espírito naquela árdua tarefa.

Justamente quando subia as escadas encontrei Cristiano, o irmão de uma das organizadoras, que estava trabalhando no bar. Procurei fugir do contato visual tarde demais e fui abordado por ele, que me pediu uma carona pra ir embora. “Que merda” – pensei de pronto – e disse a ele que não tinha problemas, uma vez que seguiríamos na mesma direção. Porém, fiz questão de ressaltar que a carona não seria até a porta da casa dele e que apenas o deixaríamos perto, para evitar maiores desvios em nosso trajeto. Ele concordou sem pestanejar e, antes que pudesse dizer mais alguma coisa, escapei de maneira espetacular rumo ao tão sonhado energético.

Ao reencontrar Florence relatei o episódio do Cristiano. Ela não curtiu muito a idéia, mas ainda assim me parabenizou pela iniciativa de limitar o percurso da carona. “Tudo o que eu quero nessa vida é tomar um banho, deitar e fingir que esse dia nunca existiu” – disse ela ainda com os olhos inchados e vermelhos de choro. Rapidamente propus à Florence que fôssemos embora, dissimulando contudo minhas intenções de “esquecer” o Cristiano por lá e de sublimar, ao chegar em casa, seu desejo de “dormir”.

Quando já estávamos quase escapando, praticamente a um passo da porta de saída, pintou o Cristiano. Fiquei muito puto e, enquanto dava um tapinha no ombro dele afirmando “eu ia te procurar lá fora”, pensei “como é que ele achou a gente”?! Mas o pior é que junto com o Cristiano estava um outro cara, mais jovem e mais desconhecido que qualquer um da festa. Fiquei desconfiado e não deu outra: o filho-da-puta do Cristiano se apressou em apresentar o “amigo”, feito ali mesmo naquele evento, e anunciou que tinha prometido a ele que os dois iriam embora juntos. Concordamos dizendo que então desceriam juntos quando nossos caminhos tomassem rumos diferentes – e entraram no carro fazendo um irritante alvoroço. Em menos de 30 segundos já tinha ódio daqueles dois – que pediam pra mudar a música, aumentar e depois baixar o volume, além de mexer com uns travestis que estavam parados na esquina. Mas o pior ainda estava por acontecer.

Após já termos avançado satisfatoriamente em nossa viagem de volta, a porra do Cristiano anunciou que tinha perdido a carteira, provavelmente deixada no local da festa. Tentei convencê-lo a voltar lá no dia seguinte, mas como era de se esperar, ele disse que tinha prendido sua chave de casa em um dos fechos da carteira. Me adiantando às considerações de Florence, propus aos dois que descessem ali mesmo onde estávamos, uma vez que fazer o retorno nos custaria um passeio por quase todo o centro da cidade. Eles insistiram pra voltar lá, e Florence acabou cedendo visivelmente consternada.

Durante o percurso de volta, após nos perdermos sei lá quantas vezes, imaginei que enfim tinha me fudido de vez, quando então o Carona, recém amigo do Cristiano, começa a choramingar preocupado com o horário. Apelando para todas as técnicas de melodrama conhecidas pelo homem moderno ele implorou que o levássemos em casa, com a justificativa de que morava em um lugar tão perigoso, mas tão perigoso, que para os miseráveis que faziam o tal caminho naquelel horário a morte era quase uma benção. E foi assim que durante todo o percurso de volta até o local da festa ouvimos os papos mais brabos da face da terra, com inesquecíveis momentos cênicos protagonizados pelo Carona. Estávamos definitivamente na paranóia com o clima sombrio daquele inusitado jovem. Mas graças a Deus o pior de verdade ainda estava por acontecer.

Paramos em frente ao sobrado onde outrora tudo havia acontecido quando o Cristiano desceu do carro e, após algumas batidas na porta já cerrada do local, finalmente entrou. Sem perder tempo, obedecendo aos meus instintos mais primitivos, sugeri ao Carona que também adentrasse o sobrado e ajudasse Cristiano. Florence olhou pra mim com pavor, enquanto o Carona, na maior cara-de-pau, me disse que “não precisava”. Olhei aquele merdinha sentado no banco de trás e vomitei um discurso emocionado sobre a beleza da solidariedade. Florence me olhou horrorizada quando finalmente fechei meu raciocínio lembrando as virtudes solidárias de Cristiano, em especial, do fato dele nos ter convencido a levar são e salvo aquele frágeil jovem até a porta de sua residência. Era o que ele queria ouvir.

Mudando radicalmente a soturna expressão de sua face, o Carona sorriu amavelmente e enfim saiu do carro. Confesso que ainda hoje recordo com o coração repleto de ternura aquele momento todo especial, quando então ele andou em torno do automóvel e, piscando o olho para Florence, disse “vocês não vão deixar a gente aqui, né?”. E respondi com a mais tenra voz um humilde “claro que não”. Minha pequena ainda teve tempo de me lançar um último olhar de incredulidade. Foi a minha vez de sorrir.

Assim que ele sumiu de vista olhei pra Florence e disse “manda brasa”. Confusa, minha adorável menina disse que não podia fazer aquilo, que era muita sacanagem, que o Cristiano era irmão de uma das organizadoras, que se ele não achasse a carteira e a chave não poderia voltar pra casa, que a gente prometeu esperar, blá, blá, blá. Dei-lhe um beijo na testa, segurei sua mão e disse que tudo iria dar certo se ela engatasse a primeira e pisasse no acelerador. E o carro partiu.

Uns duzentos metros a frente o sinal estava vermelho e paramos. Lembro que ainda estava tentando acalmar Florence quando avistamos pelo espelho retrovisor as silhuetas do Cristiano e de seu jovem amigo correndo em nossa direção. Quando os dois já estavam tão perto do automóvel que seus gritos de “espera aí” podiam ser ouvidos perfeitamente, arrancamos com o carro e eu gargalhei como um verdadeiro louco.

Convicto de que tinha vivido um dos momentos mais brilhantes da minha vida, lamentava apenas o fato de não ter um cigarrinho pra comemorar. Contudo, quando me virei pra pegar um CD no banco de trás, qual foi minha surpresa ao constatar o maço de cigarros do Carona, praticamente inteiro! Tomei um dos seus emprestado, acendi e me surpreendi novamente ao perceber uma nota de dez reais alocada no plástico do maço. Me peguei pensando sobre como aqueles dois voltariam pra casa sem dinheiro, quando dei conta que havia esquecido a latinha de Red Bull na porra do segundo andar. Diminui o ar condicionado do carro, botei minha canção predileta e, antes de me ajeitar confortavelmente no macio banco de couro, já quase na porta de casa, ainda tive tempo de sentenciar: “maldita lei do retorno”.

Quarta-feira, Maio 16, 2007


JORNALEVIANISMO
VERDADE
apresenta...





- Sr. Lao Chi Chi, fale um pouco sobre sua vida.
- Bem, tudo começou três mil anos atrás, quando a dinastia Ping finalmente derrotou o clã dos Pong e...
- Acho que o Sr. pode encurtar um pouquinho seu relato.
- Vocês ocidentais são apressados, mas tudo bem. Tive uma infância normal e fiz tudo aquilo que um menino faz: matei duas irmãs recém-nascidas a pedido de meu honorável pai - na China rural as meninas não são bem vistas, a não ser quando já é tarde demais; caçava filhotes de urso panda com meus irmãos; brincava de empilhar grãos de arroz, enfim, tudo muito natural. Mais tarde abandonei minha casa para cursar jornalismo sarcástico, pela Universidade Kagaro Nupal, onde conheci minha saudosa esposa.
- O Senhor foi casado?
- Sim, até minha ida ao Big Brother China.
- Ora vejam só, então temos uma celebridade chinesa trabalhando para o Fundo de Quintal Literário?
- Não exatamente, pois é difícil ser uma celebridade por lá.
- Por quê?
- Por conta do grande número de participantes na Casa - eram 150 concorrentes - e também por ser o BBC transmitido através da história oral e não pela televisão! Além do mais saí logo no início, sobrevivi apenas por 5 anos...
- Como assim?!
- Nossa versão dura 3 séculos e quem compete não é a pessoa, mas sim suas gerações em revezamento. Minha amada Kay Pao não aguentou de ciúme e me deixou assim que entrei no programa. Logo em seguida fui contratado pelo Diário Metafórico - um popular jornal chinês - para trabalhar como repórter esportivo, mas durou pouco.
- O Sr. foi demitido?
- Na verdade não. Como sei falar português, fui enviado ao Brasil como correspondente político para cobrir os escândalos do mensalão. Escrevia uma série de artigos mensais para o meu jornal, sob o título de Crônicas do Final da República e fazia muito sucesso.
- Que interessante. O Sr. não pensa em publicar esses textos aqui mesmo, no FQL?
- Na verdade já propus isso ao honorável Sr. Lyra, mas ele não acredita que o grande público iria se interessar. Talvez, se os leitores pedirem...
- E o que aconteceu depois?
- Como de costume no Brasil, o escândalo saiu de moda e meu editor julgou que valia mais a pena me abandonar no seu país que pagar minha passagem de volta. Caí na sarjeta da ilegalidade e sofri horrores. Foi quando decidi me matar...
- Conte-nos melhor essa história pobre Lao...
- Residia na Bahia - a lentidão dos baianos combina bem com a paciência chinesa - e me encontrava desesperado. Resolvi me suicidar como fazem os locais e estava decidido a empreender um harakiri baiano quando, em pleno Pelourinho, um jovem cheio de luz veio ao meu encontro: era o Honorável Sr. Lyra. Ele era turista e veio me pedir informações, pois seu mapa da cidade estava errado. Logo que avisei sobre a capital da Bahia ser Salvador e não Recife, ele jogou o dito mapa fora e, grato, me convidou para tomar uma cerveja.
- E foi aí que ele lhe chamou para o FQL?
- O senhor é apressado, quer fazer o favor de esperar? Bem, enquanto bebia a cerveja contei-lhe minha história e revelei-lhe minhas intenções de suicídio à moda baiana. Foi então que ele me disse ser o harakiri baiano uma prática desumana, que consistia em enfiar o dedo no ânus e rasgar tudo desde lá até o pescoço. Fiquei horrorizado.
- ...
- Ele então me ofereceu uma vaga de acessor no Fundo de Quintal Literário e aceitei com muito gosto. Hoje tenho esse maravilhoso emprego aqui no Rio de Janeiro e trabalho em troca de uma ração diária de arroz, acrescida, aos domingos, de uma bela cabeça de peixe. Tudo mudou pra melhor - graças a generosidade e o bom coração do Honorável Sr. Lyra.
- Que história emocionante Sr. Lao. Agora você acredita na vida?
- Acreditar, acredito. Mas, como Regina Duarte, ainda tenho medo...

Terça-feira, Maio 15, 2007

Não perca amanhã!!!!

"JORNALEVIANISMO VERDADE"
apresentando:

Entrevista com Lao Chi Chi



É com imenso orgulho que o Fundo de Quintal Literário reserva para você, amanhã, a nova série "Jornalevianismo Verdade", trazendo uma entrevista imperdível com Lao Chi Chi, o imigrante ilegal chinês envolto em mistérios que trabalha conosco. Não deixe de conferir e fique sabendo todos os detalhes da vida deste sábio homem do Oriente...



"Deixai fazer, deixai passar"

Segunda-feira, Maio 14, 2007

Livros, Discos e Sei Lá Mais o Quê # 10


Livro indicado: As Aventuras de Alice no País das Maravilhas

Ele adorava criancinhas e misturava, na vida e na arte, os universos paralelos do mundo adulto e infantil. Foi assim que o diácono, matemático e fotógrafo amador Charles Lutwidge Dogson - mais conhecido pelo pseudônimo Lewis Carroll - produziu duas de suas obras literárias mais conhecidas: "As Aventuras de Alice no País das Maravilhas", publicado em 1865 e "Através do Espelho e o que Alice Encontrou Lá", de 1871. A trilogia do nonsense de Carroll só se completa, contudo, em 1876, quando publica o poema "The Hunting of the Snark" - menos conhecido que os anteriores, porém tão importante quanto.

Assim, estes dois livros e o poema formam uma obra só e sua leitura não-ingênua revela uma estrutura narrativa repleta de paralelismos e sofisticados jogos semânticos. Em todos os textos Carroll se utiliza de um sistema auto-referencial baseado em jogos de duplo-sentido, alusões paródicas e, sobretudo, na utilização do portmanteaux - "palavras-valise", em que duas formam uma terceira, como, por exemplo, a palavra "snark", mistura de snake (cobra) e shark (tubarão).

Obviamente não sou um especialista na obra de Carroll e extraí estas informações da excelente edição da Summus Editorial (tradução e organização de Sebastião Uchoa Leite) - a minha é de 1980 (São Paulo, 3ª edição). O diferencial desta publicação consiste justamente na sua proposta mais ousada e, por sinal, mais completa, que traz consigo não só os textos que citei acima como outros igualmente interessantes - tais quais os jogos linguísticois dos Doublets -, além de fotos suas e das meninas entre oito e doze anos de idade que o rodeavam na Christ Church, incluindo aí a jovem Alice. A edição vem ainda com dois excelentes capítulos de crítica literária sobre a produção de Lewis Carroll , que apresenta e faz justiça à magnitude simbólica contida em seus textos.

Sobre o emprego do portmanteaux por Carroll, talvez um de seus melhores exemplos seja o poema Jabberwocky, quase que inteiramente estruturado dessa forma. Vale a pena dar uma olhada no orginal em inglês e ler a primorosa tradução de Augusto de Campos, que deu vida ao Jaguadarte na língua portuguesa. Confira ambas...

Jabberwocky


Twas brillig, and the slithy toves

Did gyre and gimble in the wabe;

All mimsy were the borogoves,

And the mome raths outgrabe.

'Beware the Jabberwock, my son!

The jaws that bite, the claws that catch!

Beware the Jujub bird, and shun

The frumious Bandersnatch!'

He took his vorpal sword in hand:

Long time the manxome foe he sought —

So rested he by the Tumtum tree,

And stood awhile in thought.

And as in uffish thought he stood,

The Jabberwock, with eyes of flame,

Came whiffling through the tulgey wood,

And burbled as it came!

One, two! One, two! And through and through

The vorpal blade went snicker-snack!

He left it dead, and with its head

Hewent galumphing back.

'And has thou slain the Jabberwock?

Come to my arms, my beamish boy!

O frabjous day! Calloh! Callay!

He chortled in his joy.'

Twas brillig, and the slithy toves

Did gyre and gimble in the wabe;

All mimsy were the borogoves,

And the mome raths outgrabe.


Jaguadarte

(Augusto de Campos)


Era briluz. As lesmolisas touvas

Roldavam e relviam nos gramilvos

Estavam mimsicais as pintalouvas

E os momirratos davam grilvos.

"Foge do Jaguadarte, o que não morre!

Garra que agarra, bocarra que urra!

Foge da ave Felfel, meu filho, e corre

Do frumioso Babassurra!

"Ele arrancou sua espada vorpal

E foi atrás do inimigo do Homundo.

Na árvore Tamtam ele afinal

Parou, um dia, sonilundo.

E enquanto estava em sussustada sesta,

Chegou o Jaguadarte, olho de fogo,

Sorrelfiflando através da floresta,

E borbulia um riso louco!

Um, dois! Um, dois! Sua espada mavorta

Vai-vem, vem-vai, para trás, para diante!

Cabeça fere, corta, e, fera morta,

Ei-lo que volta galunfante.

"Pois então tu mataste o Jaguadarte!

Vem aos meus braços, homenino meu!

Oh dia fremular! Bravooh! Bravarte!"

Ele se ria jubileu.

Era briluz. As lesmolisas touvas

Roldavam e relviam nos gramilvos.

Estavam mimsicais as pintalouvas

E os momirratos davam grilvos.

Domingo, Maio 13, 2007


"Mãe é tudo igual, só muda o endereço"

Sábado, Maio 12, 2007



Essa e outras dispensam comentários. Só mesmo a mente doentia de André Dahmer para dar vida a filhinhos tão MALVADOS...

Quinta-feira, Maio 10, 2007

(extraído do diário secreto de T. Botelho Pinto)
Tenho poucos motivos para me achar um ser humano exemplar. Naquele momento mesmo, diga-se de passagem, acabara de completar com sucesso uma de minhas artimanhas mais odiosas e, ciente de tudo o que havia se passado, caminhava serenamente o restante do quarteirão ainda com meio cigarro entre os dedos. Como sempre estava muito chapado e sorri ao lembrar do Carroba indo embora junto comigo pouco antes, lamentando a súbita interrupção do nosso encontro. Sem sombra de dúvidas ele era um cara legal mas, naquelas circunstâncias, não hesitei em fazer uso da famosa “manobra de fuga nº 04”. Joguei a guimba (aproximadamente um terço dela) fora, dei um alô pro porteiro e, menos de cinco minutos depois de ter saído com o dito cujo, já estava eu de volta ao lar, merecedoramente só.

Imediatamente sentei no sofá, peguei os livros de volta e decidi apertar um beck – “o beck da vitória”, como disse pra mim mesmo em voz alta. Quando finalmente achei o isqueiro e acendi o baseado, senti o tipo de regozijo que apenas os canalhas são capazes de experimentar e novamente soltei uma comedida risada. Na verdade, a consciência de minha vilania bem sucedida não impedia que eu mantivesse, paralelamente, uma visão mais lúdica sobre o que se passara. De fato, findo o beck, já naquele momento posterior em que o tabaco é a estrela, modificara radicalmente minha concepção sobre o ocorrido, passando a acreditar piamente que fora eu o vitimado no episódio carrobaniano – quando então, para protegê-lo de seu pecado, ofereci a outra face em sincero sacrifício. No meio do cigarro fui buscar um café, já absolutamente convicto de minha inocência e, por que não dizer, maravilhado com a admirável pureza dos meus sentimentos.

O caso é que o Carroba apareceu do nada. Porra, imagine só, você, na sua casa, largadão, de cueca no sofá assistindo TV, tudo uma grande zona e, como num passe de mágica, aparece o Carroba. “Puta-que-pariu” – foi o que pensei. “Sobe aí, cara” – externalizei pelo interfone. Tinha que ser rápido, já que contava com apenas 44 segundos, que era o tempo de subida do elevador, para dar uma geral no aspecto de holocausto nuclear da casa. “Filho-da-puta” – soltei faltando apenas 8 segundos para a chegada deste velho amigo de infância.Na verdade, na verdade mesmo, o Carroba nem estava tão errado assim.

Fiquei de devolver uns livros que ele havia me emprestado, mas acabei me afeiçoando tanto por eles que jurei, com lágrimas nos olhos, mantê-los sob meus cuidados e tratá-los como os filhos biológicos que eu jamais desejei algum dia ter. De fato, por sua insistência em reavê-los, cheguei a pensar que também ele, o bom e velho Carroba, nutria algo de especial pelos tais livros. Por via das dúvidas, cedendo às sentimentalidades do momento, optei por não atender mais o telefone. Assim flutuavam meus pensamentos até que ouvi o elevador estancando no meu andar e, de pronto, o soar de duas inconvenientes batidinhas na porta. “Filho-de-uma-puta”, foi a sentença final prolatada enquanto girava a chave e escondia os livros debaixo do sofá. Com um abraço efusivo e um sorriso quase contagiante, o Carroba adentrou minha humilde propriedade como um vampiro que acaba de ser convidado para uma taça de vinho.

Como de costume, apertamos unzinho e mandamos brasa. Tudo ia bem enquanto fumávamos até que, num dado momento, nitidamente sob o efeito relaxante do baseado, o Carroba entra naquela espécie de transe vegetativo, de um automatismo típico daqueles que já embarcaram, há muito, na complexidade solitária de sua própria viagem. Era sempre assim: o Carroba ficava absolutamente mudo, sentado no sofá, com o olhar fixo em alguma coisa além do horizonte, e eu lá, na merda, tentando desesperadamente articular assuntos e mais assuntos para evitar o constrangimento do silêncio. Apertei outro, como geralmente faço nessas situações, e ainda consegui sacar mais uns três ou quatro temas inéditos.

Quando já estava muito puto com tudo aquilo o telefone tocou. O aparelho não tinha fio e estava do meu lado, mas, como antevisse a luz no fim do túnel, levantei e fui atender a ligação no quarto antes mesmo de saber quem era. E não era ninguém – a ligação caiu. Contudo, senti que aquela talvez fosse minha única chance de escapar e imediatamente me lembrei da “manobra de fuga nº 04”. O risco era imenso, mas contraí os lábios num sorriso discreto e, de pronto, simulei uma conversa com meu interlocutor fictício.“Puta merda, não acredito nisso”, lembro de ter falado em tom mais alto e grave. Balbuciei ainda um ou dois palavrões e, desligando o telefone, fui até a sala comunicar ao Carroba meu súbito infortúnio – diga-se de passagem, ainda em fase de construção mental. Com a cara mais lavada do mundo falei que precisava ir com urgência ao banco “resolver uma merda que eles tinham feito”.

Me mostrando altamente consternado, conduzi aquela perfídia teatral com uma atuação impecável. Então, como estivesse sem graça, pedi licença para tomar um rápido banho e trocar de roupa, para, em seguida, assumir contrariado o ônus de minhas responsabilidades. Nitidamente desapontado, o Carroba apenas anuiu com a cabeça e desceu junto comigo ao som dos impropérios que emitia, naturalmente, em face daquela odiosa situação. “Malditos bancos”, foi a frase que repeti três vezes no elevador, perdendo apenas para “filhos-da-puta”, com quatro citações e, naturalmente “beleza, ele esqueceu os livros”, com aproximadamente 9 aparições mentais.

Já na porta do meu prédio, me despedi do cara, andei na direção oposta a dele, acendi um cigarro e, feliz com o sucesso da “manobra de fuga nº 04”, dei uma rápida volta no quarteirão, retornando pra casa antes mesmo que o último trago tivesse sua hora. Felizmente ninguém saíra ferido ou magoado com o lamentável episódio, cujo desfecho se deu de maneira quase tão perfeita quanto daquela outra vez em que tive de alugar um smoking para simular um... ah, foda-se. Isso é tudo besteira. Pra mim o que importa mesmo é a felicidade dos meus amigos.


* Interessado em saber como o diário secreto de T. Botelho Pinto foi encontrado?
Aperte aqui!

Quarta-feira, Maio 09, 2007

"T'esconjuro!"

# 04


IMORAL

Os primeiros raios do sol primaveril trouxeram consigo a vida que novamente se erguia sobre o gelo derretido. Contudo, aquela mudança de estado físico, do sólido para o líquido, revelou, no seu inquestionável processo de fusão, um corpo esvaído de vida, petrificado sob a neve que desfalecia aos auspícios da nova estação. Ao meio-dia, abençoando depois de muito com seu vigor solar, a luz que refletia no verde-novo das folhas desnudava mais rapidamente o verde-opaco azulado da pele da vítima, amaldiçoando com seu paradoxo luminoso os habitantes do local.

Todos sabiam do que se tratava. Todos eram testemunhas oculares e, para os críticos mais duros, letalmente omissos. Era consenso, porém, a identidade dos culpados. Poucos dias depois, como por todos era esperado, vieram, com os primeiros frutos e flores, os policiais acompanhados de um oficial de justiça. O ar voltou a gelar em toda vizinhança e só aqueceu novamente corpos e corações quando a quadrilha de assassinos tinha sido levada ao cárcere para aguardar seu julgamento.

O processo judicial, que de tão célebre fez-se célere, teve por desfecho o óbvio: a condenação das odiosas formigas pela morte da cantante cigarra.

Terça-feira, Maio 08, 2007


(Foto rara do Sr. T. Botelho Pinto)

É isso aí pessoal! Durante o mês de maio a equipe do Fundo de Quintal Literário presenteará o leitor com o Contos de Quinta Especial - Mémórias Descontínuas de um Grandessíssimo Filho-da-Puta.

Os relatos apresentados nas próximas semanas não constituem obra de ficção e seu conteúdo consiste na transcrição parcial das anotações deixadas por T. Botelho Pinto no seu diário secreto, escrito entre os anos de 1999 e 2005. Muito embora jamais tenhamos pedido permissão ao autor para publicar suas histórias de fundo sociopata, é dele, contudo, a única e exclusiva responsabilidade pelos possíveis danos morais aos terceiros aqui citados. Deixamos claro que não concordamos com sua filosofia de vida e dissuadimos o leitor a vê-lo com bons olhos.

De fato, este homem que, temporariamente, protagonizará a leitura das quintas-feiras é um péssimo exemplo de ser humano: drogado, egoísta, desonesto, ardiloso. Contudo, a despeito da vulgaridade com que são impostos rótulos para tudo e para todos, é fato inquestionável a virtude transformadora que detêm esses humildes escritos. Melhor dizendo, este relato, se lido - como pressupõe-se destino daquilo que é escrito – possui a capacidade de realizar, para além do puro entretenimento, uma grandiosa revolução na vida de quem o lê. Ele tem o poder de regular a atividade intestinal de qualquer ser humano em dificuldades. Trata-se, obviamente, de uma clássica leitura de banheiro.

Muito embora assim pareça, e nisso resida justamente o valor espetacular de seu conteúdo, as experiências de vida narradas neste livro são absolutamente reais e o registro de suas memórias, descontínuas tanto quanto inspiradoras, manteve-se oculto por longa data e, portanto, inacessível aos indivíduos de todo o planeta até este momento.

Antes de estabelecer os justos pormenores que exige tal afirmação, faz-se imprescindível ao menos uma modesta alusão sobre o homem que se esconde por detrás das letras, isto é, aquele que sendo, a um só tempo, autor e personagem desta obra, configura-se, em última instância, como o inquestionável padroeiro do intestino alheio. Mais que a ordenação de idéias, mais que a narrativa, mais que mais qualquer outra coisa que possa, assim, caracterizar tecnicamente o que se chama de “texto”, é ele, o homem que lhe deu vida, a fonte de tamanho poder.

Diante de tão fortes confissões, porém, é preciso que se saiba que T. Botelho Pinto não é, para nós, de todo um desconhecido e, tampouco, um santo.

Por longa data fui amigo do Botelho e confesso que estive presente em muitas das histórias aqui narradas. Entretanto, jamais tive a intenção de publicá-las porque nunca trabalhei com livros e sequer os lia. Foi por causa dele, acreditem ou não, que hoje sou a pessoa responsável pelo famoso Fundo de Quintal Literário. Antes do Botelho apenas exercia a função de contador em uma empresa de importação.

Foi durante uma de suas tantas estadias no meu apartamento que tudo mudou e, de certa forma, estes escritos nasceram para o mundo. Achei o seu diário secreto logo depois que me vi demitido da tal empresa – pra variar, por conta do Sr. T. Botelho Pinto.

Acontece que o Botelho tinha ido embora lá de casa e substituído o conteúdo da minha melhor garrafa de wisky por mijo. Sem saber, presenteei meu chefe com esta garrafa pouco depois, procurando adulá-lo com fins de aumento salarial. Fui demitido.

Ao encontrar seu diário secreto, porém, tive a idéia de publicá-lo e fundei o que hoje é este gigante do mercado editorial virtual, o Fundo de Quintal Literário. Dedicado a outras tarefas, contudo, esqueci-me destes escritos até a presente data e só agora seu conteúdo tórrido finalmente ganhará o mundo.

Novamente é preciso avisar que as propriedades de esvaziamento intestinal destes escritos não sobrepujam seu conteúdo degradante. Desta feita, os relatos vindouros não são recomendados aos puros de coração que, mesmo com prisão de ventre, devem se manter afastados sob o risco da perdição.

Meus sinceros agradecimentos.

Diogo Lyra

Não percam, na próxima quinta!!!

* para se interar dos Contos de Quinta clique aqui.

Segunda-feira, Maio 07, 2007


AS PALAVRAS
SÁBIAS DO
SENHOR
PLAYMOBIL ...............
(# 06)



"Pesquisas recentes demonstram que

90% das estatísticas são enganosas e arbitrárias"

Domingo, Maio 06, 2007


"Aceitamos todos os cartões de crédito"


* dedicado a Gilmar Mendes.

Sexta-feira, Maio 04, 2007



"Mente sã, corpo são"

Quinta-feira, Maio 03, 2007

Contos de Quinta...

Crônicas de sonho e realidade
para alguém
incomum como o comum



Quando era apenas um garoto de calças curtas nunca sonhara em ser astronauta. Sonhava, entretanto, em possuir mentes...

Diferente do que se sonha, porém, a noção de realidade que partilhamos e damos como fato consumado traduz-se, como tudo, numa obra transcrita por simples cinco sentidos. São eles o tato, olfato, paladar, visão e audição. Isso é tudo e é muito pouco. O homem como medida de todas as coisas também é muito pouco. Mas o que entendemos das coisas e suas medidas para além do que podemos, como homens que somos, mensurar a partir do que se vê, ouve, toca, cheira ou prova? E como homens que gostaríamos de ser, tal qual num sonho, construímos um deus à nossa imagem e semelhança, à imagem e semelhança de nossos cinco sentidos hipertrofiados. Tornamos divina a capacidade de tudo ver, ouvir, tocar, cheirar e provar. Sonhamos com um além para aquém do que verdadeiramente somos e sentimos, como fosse o que se é ou sente apenas uma sombra do que se vê, ouve, toca, cheira ou prova.

Por isso nem sempre nossos cinco sentidos dão conta daquilo que sabemos. Devem ser flexionados ao limite para, sob a práxis de uma licença poética pura, levar adiante a crença no real. Caso não fosse assim, o que diríamos a respeito do corpo humano, por exemplo? Ele é finito, por certo. Será mesmo? Imagine então que o núcleo de uma célula já foi considerado pela ciência a menor partícula de um organismo. Até certo momento, era a única partícula que podia ser vista e, logo, a única que existia. Dividiu-se em átomos e era incrível. Depois em nêutrons, prótons e elétrons, e já se sabia o fim. Atualmente a nanodimensão já é uma realidade e o corpo humano, objeto finito, uma vez mais se decompõem na esfera do imperceptível. E isso me leva a crer que também ele, o corpo humano, pode ser um pequeno universo infinito. Invisível, inaudível, intangível, inodoro, insosso. Mas existente e real. Como um sonho.

Um famoso homem de letras disse, certa vez, que “existem mais mistérios entre o céu e a terra do que a nossa vã filosofia pode supor”. Um anônimo, como que completando seus pensamentos, sentenciou: “não acredito em bruxas, mas que elas existem, existem”. O famoso e o anônimo, cada qual a seu modo, cada qual para seu público, dividiram a mesma virtude, isto é, o reconhecimento de que nada é o que parece, e a realidade, tal qual imaginamos, não é mais que uma pretensiosa, ainda que limitada, tentativa de explicar o inexplicável. Enquanto a realidade é uma fantasia desenvolvida a partir do que vemos, ouvimos, tocamos, cheiramos e provamos, a loucura define o que lhes escapa. O louco é, por natureza, um fugitivo das certezas. Seria, contudo, um fugitivo do real?

Creio que os homens sãos jamais poderiam assim se considerar caso, num dado momento da vida, não se questionaram loucos. Pois é louco todo aquele que é único e se crê aquém por estar além. Na razão de sua vida, a falta de razão do mundo. No céu dos pássaros, um firmamento para seus passos. Quantos sãos não sonham a loucura de sê-lo? E, sendo o que são, para quais realidades se projetam, se entregam, estes homens sãos e salvos da fantasia?

Os vôos do homem são possíveis. Seu destino, entretanto, é o intraduzível. Os vôos dessa ave inquieta, que desafiam necessariamente nossos cinco sentidos pregados ao chão, não hão de lançá-lo longe. Ao contrário do que se pensa, levam-no tão perto do mistério que, na tentativa desesperada de organizá-lo, no recorrente auxílio ao quíntuplo sensorial, de tão perto perde a noção do todo e, de todo, perde a noção de tudo. Mas continua a tentar. Continua a tentar decifrar. E continua a tentar decifrar com uma peça única de quebra-cabeça. E continua, para todo o sempre, com aquela única peça na mão, sabendo, porém, que detém uma prova.

E o que ela prova, única e exclusivamente, é que não há jeito de decifrá-la. Não há como descrevê-la. Não há como tocá-la. Não há como traduzi-la. Mas há, certamente, como senti-la. Há, por suposto, que mergulhar. Há, sempre há que absorvê-la. E isso basta. Não ter certeza. Aguardar a próxima vez. Sempre e sempre, com a única peça na mão. A prova absoluta da incerteza e da grandiosidade de se saber pequeno, da possibilidade de sonhar, levantar vôo e pisar no firmamento.

Quando eu era apenas um garoto de calças curtas, nunca sonhei em ser astronauta. Sonhava, entretanto, em possuir mentes...

Quem há de dizer então o que é realidade? Seria aquela fantasia apegada e limitada pelos cinco sentidos? Ou aquela que os transcende? Pelo sonho se infere o real, ou, ao contrário, é do real que se alimenta o sonhador? Que possuem em comum, afinal, o homem dos sonhos e o homem que sonha? Tudo que sei a respeito disso é que nunca possuí mente alguma que não a minha própria. E ela possui seu mistério, que me possui e me leva a querer possuí-lo. No final, só tenho uma peça invisível, inaudível, intangível, inodora e insossa.

Se a realidade é o chão em que piso e corro, meu destino invariavelmente é me ver detido ante o choque da queda. Mas se a realidade é o que vejo do alto de meu vôo, então, também cairei. Porém, ao contrário da interrupção abrupta do tombo veloz, a queda que precede o vôo também se vê precedida da tentativa inata de planar, e assim contemplar, na confusão do desespero, os últimos momentos do salto.

Os astronautas não caem. Levitam perpetuamente ao sabor do espaço e de sua gravidade anulada. Não voltam. Não contam. Não entendem. Eu, eu nunca quis ser astronauta. Queria mesmo possuir mentes...

A vida, entendo, é uma fantasia sedimentada na fábula da certeza. E se assim se faz, há que se tornar mais bela, ainda que isso importe em ignorá-la. Há que se tornar mais vida, ainda que isso importe em sonhá-la. Há que se tornar mais real, ainda que isso importe em fantasiá-la. Há de ser mais, ainda que isso importe em menos. Afinal, os deuses não eram astronautas...

Eu nunca quis ser astronauta, mas sempre sonhei ser Deus. E sonho tão impetuosamente que chego a acreditar ser eu o sonho de outrem. Esse, que me sonha, produz, ao me sonhar, seu eu fantasioso. Da mesma forma, eu que sou bem menos do que sonho ser, sonho com esse eu melhor. E esse eu melhor também sonha com outro, que sonha com outro, e assim, por meio de sonhos sucessivos e infinitos de um mesmo “eu”, sonhado cada vez mais alto, eis que, em derradeira realidade, então, me torno Deus. E quando por mim alcanço o todo, e só por mim sinto que ele existe, eu sonho, na minha realidade, a fantasia de ser pequeno. E misturado aos outros pequenos, guardo junto ao peito o segredo desse sonho, que sonho em cinco sentidos, com pés fincados ao chão, só para evitar que a vida se passe de forma invisível, inaudível, intangível, inodora e insossa.

Quarta-feira, Maio 02, 2007

SEM LUZ

"O homem cansado da vida estava cansado, sobretudo, de si mesmo. Sozinho, mergulhado na imensidão de seus próprios pensamentos vazios, chorou lágrimas piedosas e, sentindo-se nefasto logo em seguida, julgou por bem abandornar os esforços cardíacos e respiratórios que tanto insistiam em mantê-lo vivo e sofrido neste mundo repleto de espinhos e urticárias.

Chorou, e chorou, e chorou. Não queria ir-se assim, sem nem ao menos outro choro que lamentasse seu próprio lamento de um ângulo diverso. Queria alguém, qualquer um, um qualquer, em qualquer lugar, que pudesse exercer sobre ele a força coatora da vida para, dessa forma, resgatá-lo. E colocou uma bala prateada no tambor do revólver negro e opaco. E sentiu com isso um arroubo de estranha felicidade. E como pressentisse no brilho letal da bala um horizonte iluminado que nunca antes experimentara, dirigiu seus dedos ao gatilho, chorando uma vez mais".

Foi quando o abrupto interrompimento da eletricidade apagou do computador o texto não salvo do jovem escritor e salvou, sem querer, a vida de seu personagem...



Terça-feira, Maio 01, 2007


Dois jovens refletem sobre o Dia do Trabalho

- É, hoje é o dia do trabalho.

- Feriado, todo mundo descansando em casa...

- Hum, dias assim me dão vontade de ter um emprego!

Segunda-feira, Abril 30, 2007


"Como era mesmo o nome daquele imperador francês?"

Domingo, Abril 29, 2007


"Adicionar é fácil, conviver é que são elas..."

Sábado, Abril 28, 2007


Vez por outra nosso Fundo de Quintal Literário trará até vocês algumas das melhores postagens de outros blogs, procurando, assim, superar suas próprias limitações criativas e, sobretudo, homenagear as mentes em atividade na rede. Assim, dando prosseguimento à série, um post original de:

Marcelo Mendonça



* textos, charges, fotos e o

Caralhaquatro

Sexta-feira, Abril 27, 2007


O Fundo de Quintal Literário já está no Orkut!

Clique aqui para fazer parte desta incrível comunidade!!!

E você? Vai ser o único bundão de fora?!


Eu odeio Oscar Niemeyer.






Eu gosto de sandálias de couro.

Quinta-feira, Abril 26, 2007

Contos de Quinta... Light!


Pontos de Vista


Lá estava ele, o pai, folheando displicentemente as páginas do jornal de segunda-feira quando se deparou com uma daquelas notícias estarrecedoras. Por mais corriqueira que fosse, não se conteve e foi invadido por uma onda de fúria que, em seguida, transformou-se na apatia melancólica da desilusão.

Sabia que reportagens como aquela eram comuns e que, infelizmente, vez por outra depararia-se com seu triste conteúdo novamente. Contudo, ao percorrer as letras da tragédia, não conseguia imaginar como tantos jovens podiam fechar os olhos para o perigo de uma vida entregue a fortes emoções e sob o risco permanente de um abrupto interrompimento...

Pela janela de seu quarto observava o pequeno filho brincando com um velocípede e foi incapaz de evitar todo o angustiante sentimento de impotência que lhe gelou o corpo. Desejava fortemente que sua privilegiada condição financeira pudesse livrá-lo desse mal, mas sabia bem que, muitas vezes, nessas circunstâncias o perigo era ainda maior.

Pensou consigo mesmo e concluiu que, ao menos de sua parte, nunca houve interesse. Mesmo seus amigos, muito embora fascinados, jamais mergulharam fundo, talvez pela falta de acesso, talvez pelo medo de perderem suas vidas em uma aposta mal feita. Sabia que existiam diferentes modalidades e que estas, em variados graus, ofereciam um maior ou menor perigo. Todas, no entanto, eram capazes de conduzir ao fim.

“O jornal de segunda é foda”, disse logo que resolveu se afastar de todos aqueles pensamentos deprimentes. Imediatamente acendeu um baseado para relaxar e, depois de alguns tragos, voltou a observar seu garoto pela janela.

Sentiu-se feliz e jurou a si mesmo nunca mais dar tanta atenção aos acidentes ocorridos na Fórmula 1.

Quarta-feira, Abril 25, 2007


Oriente e Ocidente:

A História do Mundo Completo


Pouco se comenta sobre o par Ocidente e Oriente para além das diferenças que caracterizam e, supostamente, polarizam um e outro.

Eles esquecem (porém) que a vida de ambos repousa justamente nessa existência concomitante. Não importa, dessa maneira, o quanto exibam suas espeficidades antagônicas, pois que são irmãos. Ocidente e Oriente são, assim, bem mais que nascidos do ventre biológico costumeiro. São entes paridos na força inenarrável, irrevogável e inconteste da mútua composição.

Pouco se comenta sobre o par Ocidente e Oriente para além das distâncias que antagonizam e, inutilmente, exorcisam um ao outro.

Eles desconhecem (convém) que mais que a distância física e psicológica a tornar ambos únicos em suas manifestações individuais, perdura e sobrepõe-se, queiram ou não, o cordão umbilical não rompido, do qual tanto um quanto outro se alimentam e pelo qual ambos permanecem ligados. Ocidente e Oriente são, assim, bem mais que irmãos. São metades tomadas por inteiro, mas que só se realizam plenamente em conjunto e, dessa forma, conseguem abarcar toda a extensão planetária.

Pouco se comenta sobre o par Ocidente e Oriente para além das instâncias bélicas que protagonizam e, concretamente, ridicularizam um o outro.

Eles abastecem (também) o fato de se possuirem em comum, numa “comunidade individual” que poucos saberiam possível. Seu paradoxo, que refuta contradições, repousa nesse imperativo sincero, nessa necessidade de querer e nesse claustro sentimental que os condena. Ocidente e Oriente são, assim, bem mais que irmãos. São ímãs e por isso não há barreira geográfica, cultural ou crença que possa de fato separá-los...


... e é na fronteira de seus territórios individualizados que, justamente, dá-se o
encontro entre eles.



Ou não!

Terça-feira, Abril 24, 2007


AS PALAVRAS
SÁBIAS DO
SENHOR
PLAYMOBIL ......... (# 05)



"Se você vai disputar uma partida de xadrez
em Nova York,
é melhor aprender a jogar sem as torres"

Segunda-feira, Abril 23, 2007


"Eu vivo sempre no mundo da Lua"

Domingo, Abril 22, 2007

"É dando que se recebe"


Quinta-feira, Abril 19, 2007

Contos de Quinta...



Para Diana

Decidido a socorrer a si mesmo, e vendo sucumbirem à melancolia aquele corpo e aquela mente de muito ainda juvenis, o homem enclausurado resolve escrever-se uma carta, e dar-se uma chance de prover, com um acalanto anestesiante, seu eu presente – a saber, o de um jovem mutante a meio passo de uma nova fase em sua vida, sem saber do meio passo já dado. Não era fácil, entretanto, a tarefa de anunciar-se, ou melhor, a imposição de elucidar-se perante o confuso rapaz. Sua própria vitalidade futura estava em jogo, e tudo aquilo que viria a ser dependia, de muitas e complexas formas, daquela passagem determinante para sua libertação.

O homem enclausurado não atribuía à sua condição uma noção de confinamento propriamente dita. Esta sensação era recente, e chegara por substituição ao que outrora poderia caracterizar como um salutar estado de acúmulo, orientado para uma expectativa futura de rompimento. Pelo contrário, quando ainda se encontrava nesse momento de lúdica incipiência, era capaz de experimentar todo o sabor da liberdade e deliciar-se com a impetuosidade daquele que representava, paralelamente, seu presente e passado, bem como a base de seu futuro. Porém, sem saber ao certo como nem quando, o homem enclausurado passou a sentir-se precisamente dessa maneira, preso, asfixiado, impelido ao nascimento que faria renascer, ao meio dia de sua existência, a unidade que buscava junto ao ser com o qual dividia os impulsos de seus atos.

Contudo, esse estado de coisas não era de conhecimento exclusivo do homem enclausurado. Também o jovem havia adquirido consciência daquela inexorável transição, da inquietação do homem que guardava dentro de si e que, um dia, havia desejado com todo ardor da ingenuidade viesse logo à tona. Mas o jovem, constatado o momento, sofria e, com isso, também fazia sofrer o homem enclausurado. Este, no seu íntimo, naquele lócus inconfessável de sentimentos confusos e contraditórios, justamente ali, onde não existia verdade ou mentira, apenas desejo, ele haveria por endossar, para todo o sempre, caso pudesse, o jovem que agora temia por seu desvanecimento.

E foi assim que, na transição da noite para o dia, quando enfim o rapaz descansava o corpo e a mente de mais um dentre tantos outros momentos intensos e excessivos de sua vida, ele decidiu escrever, com muito cuidado e candura a carta que, assim acreditava, faria aplacar suas inseguranças quanto a si mesmo. Após uma curta reflexão, debruçou-se o homem sobre a pequena mesa à sua frente para, logo em seguida, deter-se ao movimento, refletindo um pouco mais, e molhando a pena novamente, retomou a coreografia de seus braços, e como houvesse pensado minuciosamente sobre o conteúdo de sua mensagem, de uma só vez ele escreveu:

"Meu querido rapaz,

Saibas que minha chegada é inevitável, quem sabe mesmo chegada a hora, e que meu direito inalienável, sob esta condição, é de fazer-me pleno e dirigir, com novo fôlego e gosto, os rumos de nossa insondável existência. Entretanto, não te escrevo com o fito de cobrar e exigir, te escrevo como amigo, companheiro, como o único dentre todos nessa vida com quem que tu podes contar até o final, mesmo que ao final estejas sozinho em teu caminho.

Compreendo que, se não é fácil, para mim, assumir, que dirá a ti, deixar-te. De fato, é impossível prometer uma transição absolutamente isenta de sofrimentos e asperezas, pois com a tua partida também partir-se-ão, numa infinidade de cacos multicoloridos, todo um conjunto de frágeis certezas. No entanto, ao longo de minha jornada, prometo que procurarei juntar, da melhor maneira que for capaz, alguns desses fragmentos e, não sendo possível restituí-los em sua originalidade, tentarei ao menos recriá-los, sob a forma de novas ilusões.

Devo advertir somente que não estarás só em tua partida. Contigo também irão boa parte dos teus sonhos, amigos, desejos e dramas; e habitarão todos eles o espaço que hoje ocupo. Então seremos homem, e tu o confinado. Não te entristeças. De certo modo desfrutarás de condições bem melhores do que as que hoje me são impostas, de pura solidão e incerteza. E quando então no comando, reservadas a mim toda a sorte de rudezas, estarás tu romantizado, perseguido pelo arrependimento nostálgico nascido da incapacidade de compreender, ao tempo vivo dos acontecimentos, que aqueles eram os momentos eternos dos quais ficariam a lembrança e saudade de um todo e sempre, do qual nunca farão parte as ninharias à que eu, quando assim o for e comandar, me verei restrito, na realidade do pequeno alcance das minhas mãos. Desfruta do teu tesouro enquanto podes.

Assisto o teu choque com mais dor que impaciência, meu rapaz. Suspiro o suspiro que é só teu, por ser meu o destino e responsabilidade que lhe ensejam. Saibas que é meu cada passo que tens dado, e é minha cada gota de insegurança que te invade, a preencher o vácuo deixado por tuas tolas convicções. Fui eu quem soprou nos teus ouvidos a triste verdade que te assola agora, a de que na vida não há predestinado outro senão o de nascer para morrer; e é minha a revelação de que o dia que tanto esperavas, quando então triunfante cruzarias a linha de chegada imaginária do teu sucesso incondicional, simplesmente, não existe, persistindo em seu lugar apenas uma monótona andança sem fim e sem sentido; fui eu quem te acordou do sonho que sonhavas para ti, e sem pudor demonstrou o quanto havias te idealizado, e o quanto isso haveria de te cobrar no momento de minha chegada. E cada chaga aberta é meu destino e minha aventura, e cada lágrima que derramas é, simultaneamente, uma sentença que devo cumprir e um desafio que me proponho superar.

No entanto, antes que estas palavras venham a contradizer a essência de minhas intenções, dobrando assim um espírito para o qual se faz o império momentâneo da plena força, trago-te o consolo de minha temporada, quando hás de colher novos frutos, de sabor e consistência ainda inéditos para o modesto paladar de tua inexperiência. Guarda apenas que os aproveitará colhidos sejam à época correta.

Meu jovem rapaz é chegada a hora, e quando receberes esta carta terás contigo o aval que subscreve tua partida. Deixa o mundo que pavimentaste com teus sonhos, deixa o mundo que sonhaste pavimentar. Esse caminho, sigo eu agora, com a simples herança do teu vigor.

Dorme em paz".

* * *

Com o ponto final da carta extraiu o homem enclausurado certa paz para si mesmo. E descansou, e dormiu, e sonhou. E em seu sonho o homem enclausurado encontrava-se finalmente livre, a empreender um vôo sobre um conhecido território que lhe descrevia, com suas linhas e curvas sinuosas, a trajetória de sua própria vida. Do alto, a planar num movimento horizontal, pôde vislumbrar as paisagens de sua existência e os cenários nos quais atuou com sucesso e com fracasso, ao som das vaias e dos aplausos, por vezes, sob o silêncio da indiferença. E assim, quando findo seu insólito percurso, encontrou o dito homem aquele jovem rapaz que lhe precedera, na clareira onde escolhera pousar, a repousar com toda sua graça juvenil. Este, tomando-lhe as mãos com um sorriso, arrematou-o para um novo vôo, onde juntos, tanto o jovem quanto o maduro, alcançaram sua tão desejada plenitude, no paradoxo daquilo que se entendia por velhice.

Em seu passeio derradeiro, seguros o jovem e o maduro pelas enrugadas mãos do velho, seguiram, qual fossem uma tríade sagrada, ao clímax de sua autocompreensão. Nesse momento triunfal, quando então se faziam sonoras as últimas badaladas de uma existência repleta de gratas surpresas, aquele ser incompleto, a sentir-se uno, único e pleno pela primeira vez em sua vida, compreenderia que todo seu incansável vôo, todo seu desgastante percurso, estava voltado para uma única missão, a cumprir-se com simplicidade no irrefutável toque da finitude.

Quarta-feira, Abril 18, 2007


"Mulher de amigo meu pra mim é homem"


* dedicado ao orgulhoso corno do Leblon.

Terça-feira, Abril 17, 2007

No tempo em que Plutão era planeta...
# 03

... discutia-se política mesmo durante o carnaval.


Segunda-feira, Abril 16, 2007


BURGUESES

Sabia que estava morto mas desconhecia, obviamente, os protocolos vindouros. Arrebatou-lhe, porém, uma curiosidade súbita que, em diálogo com suas enfermas crenças ocidentais, motivou uma reflexão quase caricatural sobre sua trajetória de vida. Antevendo de pronto suas prováveis consequências, sentiu o suor escorrer pela face e percebeu que suada é também a vida de quem já morreu. E pensou nas piscinas, nos on the rocks, no tabaco caribenho, nas bucetas interesseiras. E pensou no carro, na casa, no banco, nas infinidades de seguros.

Logo concluiu que levara uma vida pobre apesar da riqueza, miúda no apego às grandiosidades. Era um estúpido, arrogante, idiota. Foi-se sem saber o que é ser decente e concluiu que sequer teve chances de mudar. Esbravejou, logo se culpou, depois arrependeu-se... e chorou. E só queria uma chance. E só queria ser outro. E só queria...

... abriu os olhos e verificou a realidade. Nela constatou ter urinado nas calças, além de se encontrar banhado pelo próprio vômito. Os amigos burgueses riam. Todos na festa riam. E ele desejou estar morto.

Sábado, Abril 14, 2007

Nem Tudo São Flores...



De: Fabiana Rao
Enviada: sáb 14/4/2007 03:25
Para: Diogo Lyra
Assunto: PROCURA-SE



PREZADO DIOGO:

LAMENTO, MAS "PROCURA-SE" NÃO CONVENCEU.

1. O PRONOME "ONDE", MUITO MAL EMPREGADO LOGO NO PRIMEIRO PARÁGRAFO. DEVERIA ESTAR ISOLADO POR VÍRGULAS.

2. O "PARA ALÉM" TAMBÉM SOA MUITO FALSO. REPARE QUE VC O UTILIZOU TB NOS DADOS BIBLIOGRÁFICOS. UM LUSITANISMO SARAMAGUIANO QUE SÓ FUNCIONA EM PORTUGUÊS LUSITANO, DE PREFERÊNCIA ESCRITO COM A MAESTRIA DE JOSÉ SARAMAGO.

3. POR FIM, A TABACARIA...MAIS LUGAR-COMUM PESSOANO, IMPOSSÍVEL.

ABRAÇOS.

(...)

Fico pensando o que poderia estimular uma mulher como esta, balzaquiana, paulista, absolutamente desconhecida, a me enviar algo assim às 3:25 da madrugada...
Altruísmo ou falta de estímulos sexuais?


Você decide!!!!


* Para ler o conto "Procura-se" clique aqui.


Vez por outra nosso Fundo de Quintal Literário trará até vocês algumas das melhores postagens de outros blogs, procurando, assim, superar suas próprias limitações criativas e, sobretudo, homenagear as mentes em atividade na rede. Assim, dando prosseguimento à série, um post original de:

Tchello Melo


Newtonianas

quando eu me perco
penso
que estou na minha

quando eu me desespero
peso
o que me alivia

quando eu me arrependo
prendo
a carta de alforria

quando eu aprendo
pendo
para a poesia.


* Um olhar inusitado a frasear o inesperado. Sabe o que é?

Quinta-feira, Abril 12, 2007

Contos de Quinta...


O Sonhador


Fechou os olhos e lançou-se ao sono, ao sonho, insano. E pela dureza da vida, vivida de olhos e chagas abertas, de muito sol que se queima a pele, de muita chuva que molha o corpo, de tanto sol que se quer na chuva, de tanta chuva que se quer no sol, sonhou com seu próprio corpo os sonhos de sua mente e viu, de olhos fechados, todo o sol e toda a chuva que na vida desejava ter.

No sonho de sua vida, vivido, apenas sono. No sono o sonho de outra vida, na vida em sonho um sono sentido nos restos de uma vida insana. Mas o sonhador era incapaz, por ser infeliz, e era infeliz por carregar os sonhos que desejava e mantinha não como um ideal, mas como um aspecto cinza de sua vida vivida de olhos abertos e chagas expostas, anulada pelo torpor convidativo do sonho fechado em si mesmo.

Não vivia a vida, portanto, como é de convir e, sobretudo, de exigir. Não abria os olhos, ignorava o sol e desdenhava da chuva. Sonhava para não sentir mais dor. Sonhava para sentir o mundo perfeito. Sonhava sem saber das imperfeições parte vital de toda e qualquer existência. Sonhava sem saber que a dor constituía logicamente sua própria condição e termo, como ser vivo que era.

Contudo, por mais que deitado o corpo, ludibriada a mente, o sonho que se sonha e se supõe melhor não vence, com sua doce estagnação, o tempo que passa, por dentro e por fora, em tempos diferentes, em rotação, translação e, especialmente, transformação. O tempo passa e carrega, junta ou desmantela, mas não poupa do sol e da chuva, perceptíveis aos olhos vivos, sentidos na carne crua, o corpo estagnado que a deitar se entrega.

O sonhador se engana e clama por clemência. No apogeu de sua euforia uma súbita expectativa de queda. E pensamentos temerosos, e rancores confusos, e culpa incerta. No clímax de sua rota apenas um cansativo caminho de volta. De estradas imperfeitas, de atalhos enganosos, de percursos doloridos. Ele se engana e clama por clemência.

Há muito que o sonhador deixou de lado seus verdadeiros sonhos. Substituiu sua vida por sono e, insano, sem se dar conta, no lugar de sonhos ele apenas sonha a dor...

Quarta-feira, Abril 11, 2007


Manifesto Politicamente Incorreto

Vivemos tempos inquisitoriais e mais do que nunca é preciso andar nos trilhos, ainda que o trem venha sedento e desgovernado em nossa direção, indiferente ao apressar dos passos do andarilho. São tempos de cartilha, de dicionários, de significados e termos exatos, ainda que isso determine uma transgressão da ontologia, na hipocrisia e no contradizer dos fatos.
Somos ratos.

Vivemos tempos inquisitoriais e mais do que nunca transgredir é preciso, ainda que seja obrigatório obedecer ao limite de velocidade, munido de cinto de segurança e air bag, é verdade – caso tenha sobrado algum trocado para o equipamento.
Ande lento.

Vivemos tempos inquisitoriais e mais do que nunca imprecisão é preciso, ainda que às esferográficas tenham se juntado corretores líquidos, e líquido e certo seja o dever do oprimido de não errar um erro não de todo incorreto.
Seja esperto.

Vivemos tempos inquisitoriais e mais do que nunca é preciso nadar, contra e a favor da corrente, o mais que seja conveniente, por mais que a gente se (des) oriente e assim se pense não sair do lugar. São tempos de seguir a trilha, mesmo que a primeira milha desse caminho inusitado seja ainda um troço a desbravar.
Saia do lugar.

Vivemos tempos inquisitoriais e mais do que nunca é preciso troçar, confundir, rir, mangar, provocar, irritar, desafiar. São tempos de transformar o tabu em totem, ainda que, notem, não se saiba nada de Freud ou Oswald de Andrade. São tempos de sacanagem, ainda que sacana mesmo sejam os corretos e boa parte de suas politicagens.
Rir para não chorar.

Mas são tempos de vanguarda, ainda que a retaguarda, pelo valor estratégico e pela simples piada, seja algo a se pensar e, sobretudo, resguardar. Do contrário, serão sempre tempos inquisitoriais, de corretos sisudos e convictos boçais, de tempos inquisitoriais, somente e nada mais, mas que, porém e aliás, são tempos de vanguarda, onde a sorte está guardada, aos loucos, cínicos e àqueles poucos sentimentais.
Seja mais.

Terça-feira, Abril 10, 2007

"I see dead people"

Segunda-feira, Abril 09, 2007


FUGACIDADE

Era um homem triste e solitário, como convém aos obscuros. Era feio. Era burro. Era pobre. E dançava como um pateta. Sempre soube do ostracismo e sempre sofreu da negligência. Era inodoro. Era insípido. Era incolor. Pois era albino. Também.


Naquele dia, contudo, foi diferente. Ele, triste e solitário, feio e burro, naquele dia, ou melhor, naquela noite, dançou como um pateta mas chamou a atenção de alguém. Que lhe queria bem. E não queria ficar só. Como ele, o albino. Após o coito inédito, decorrência de uma noite inédita, cheia de sabores, cores, corpos, copos, ele e ela, sobre e sob, acordou já pela manhã. Dirigiu-se ao banheiro. Foi se lavar. Olhou-se no espelho e, no meio de um sorriso, repetiu para si mesmo “hoje é seu dia de sorte”.

Domingo, Abril 08, 2007


"A vida é a arte do encontro"


Sábado, Abril 07, 2007

Apropriações Indébitas # 05

Vez por outra nosso Fundo de Quintal Literário trará até vocês algumas das melhores postagens de outros blogs, procurando, assim, superar suas próprias limitações criativas e, sobretudo, homenagear as mentes em atividade na rede. Assim, dando prosseguimento à série, um post original de:


Karina Goda

TRAGICOMÉDIA


esse amor desanda
e sempre perde o ponto:
oferece champanhe,
quando a sede é de água;
estende abraços de orquídeas,
quando uma só margarida basta.

baby, sentimento não se sofistica, entenda.


* Uma Bic na mão e muitas idéias na cabeça. Verdadeiras delícias essas

Sexta-feira, Abril 06, 2007


- Foi nesta data que Jesus Cristo morreu.
- E isso nos rendeu um feriado...
- Graças a Deus!

Quinta-feira, Abril 05, 2007

Contos de Quinta...


A Ilha de Papacu e a Prodigiosa História
do Nascimento do
Santo das Botas Gastas




O engraçado é que a Ilha de Papacu nunca foi uma ilha, ao menos se considerada a partir dos critérios e padrões estabelecidos pela geografia moderna, cujos parâmetros científicos, ignorados antes mesmo de serem pensados e naturalmente estabelecidos, pouco foram aceitos, já que desde a chegada dos primeiros colonos europeus, quando então a ilha não se sabia ilha e sequer Ilha – uma sábia época na qual não se pensava em coisas tão descabidas –, naqueles tempos antigos, tão antigos que o passado, nesse tempo, era ainda uma saborosa novidade; nesses tempos passados em que, pela juventude mesmo do mundo, ainda não era possível aos homens determinar com precisão o limite das coisas; desde então, quando enfim a ilha nasceu para o mundo e dele recebeu seu batismo, batismo batizado com a mesma água salgada que lhe cercava e compunha, como fosse seu útero natural e eterno, a placenta na qual se formou e retira, ainda, seu sopro vital; nessa época imemorial da qual realmente pouco se tem de registro, mas registro outro que não o contado, e que falado não é escrito, desde então, por tudo e mais um pouco, Papacu foi considerada ilha e, como desconsiderasse diferenças entre presente e passado, sobretudo a distância que os separava, permaneceu e permanece ilha, e como Ilha será narrada – pois nessas terras temperadas, misteriosamente, bem eu sei, não havia lugar de partida, caminho do meio ou linha de chegada, ponto cardinal que fosse, bússula mais moderna e precisa que, se devidamente regulada e bem seguida, não indicasse tanto ao desorientado quanto ao incrédulo, ao sujeito são ou aos que são da pá-virada, um lugar de areia fina, de verão eterno, eternamente banhado pelo mar, e maliciosamente ignorante do inverno.

Ilha ou não, de acordo com alguns “especialistas”, no quê não se sabe direito e que a despeito disso respeita o omisso de todo jeito, os chamados doutores, portadores de diploma, os quais a humildade com restrita verdade bem rápido põe à lona (que pífia tomba em seu combate, e golpeada com efeito, no primeiro soco então se abate, pois o que lhe atinge a face, e contudo dói mais no peito, é a mão do anel de formado, a contundir por inconformidade quem lhe recusa respeito), com científico atestado, comprovavam sorrateiros, com os estudos nos quais são formados, por universidades do estrangeiro, e com estes garantiam ao final, afirmar sem se preocupar, que Papacu, como era notório, se deitava sobre um vasto território, “continental” – falavam sem medo e alheios ao zelo, pois era a ciência quem lhes falava e não falhava, coisa e tal. Os números que denunciavam suas gigantescas proporções, quando foram apresentados ao povo pelo afamado conspirador, informavam, para surpresa geral, que para cruzar toda a extensão de suas terras, seja de carro, seja de trem, para fazê-lo, se assim o fosse, eram necessários muitos e muitos dias, tantos, que nem rogando ao Santo das Botas Gastas – eles disseram – conseguia-se percorrê-la contando somente com a ajuda das próprias pernas. Seus habitantes, entretanto, nunca acreditaram nessas bobagens, pois eles, mais do que ninguém, sabiam bem que, com apenas algumas horas de caminhada, sempre antes das seis ou depois das oito, era possível cobrir Papacu de ponta a ponta, com hora marcada, conferida em justa conta, e caso quisesse uma parada, se ao viajante assim conviesse, em qualquer casa havia preparada, sem que à ninguém fosse surpresa, uma boa chícara de café e um delicioso bolo de fubá na mesa. Diz-se, a respeito disso, que no primeiro, último e único censo de Papacu, quando então os homens do Estado ainda engatinhavam na arte de calcular a sociedade, e por isso mesmo fantasia e verdade pouco se diferiam em conteúdo, e esta é a mais pura verdade, o Funcionário designado para realizar a tarefa pioneira, sem perder a compostura e tampouco a estribeira, veio a suspender, após seu primeiro dia, os próximos dias de trabalho, interrompidos com razão, pois o pobre homem relatou, não sem muitos detalhes, por sinal, em demasia – tendo em vista uma conclusão já tão concluída por uma quantidade imensa de pessoas pouco instruídas – que, para ele, ou os habitantes da Ilha eram todos incrivelmente parecidos, ou, pelo milagre da Virgem de Todos os Dias, só com sua bênção e só assim, ele, o Funcionário responsável pelo censo, um quase sexagenário de octagenário bom senso, conseguiria percorrer o país inteiro, em apenas cinco horas de batente, tendo memorizado as feições e respectivos nomes de cada gente, um caso extremo e, em todo caso, muito diferente – tal qual é diferente um chinês para o ocidental, mas diferente sendo igual a todos os outros igualmente diferentes de sua amada terra natal, o que, ao final, resulta em algo normal para todos aqueles que diferentes, são normalmente tanto chineses quanto papacunianos.

Porém, naquela mesma ilha ensolarada, ainda que constatada, sempre que percorrida, a pequena distância percebida entre um destino de chegada e qualquer ponto de partida, isso não significava que, em última instância, em ocasiões determinadas, naquelas viagens de extrema relevância, quando as portas do Palácio eram o objetivo final da jornada, nessas raras ocasiões, nessas peregrinações específicas, as chances de se chegar ao Palácio eram tantas quantas são para o míope ou à tísica, em imaginária empreitada, deparar-se com a última flor do Láscio, observada a estatística; logo, por mais que se tentasse, se não fosse uma sorte de aura quase mística, de um evento ou uma data solene, de alegre e respeitável porte, essencialmente festiva, enfim, se não se tratassem daqueles momentos nos quais, justamente pelo clima de festa e de infesta descontração, e por isso mesmo, da supremacia do vinho sobre o pão, tornava-se impossível o pensar ou mesmo o lembrar de coisas tão sérias (falar às Autoridades? Mas que pilhéria!), e com salvo-conduto os homens de poder aos quais reputo, quase perto do povo, faziam ar de caridade, e dedicavam-lhes uma saudação; não fosse assim e somente assim, então, para os pobres peregrinos que tentavam chegar ao Palácio, maior que fosse sua determinação ou constituição física, pobre miserável ou saúdável infeliz, mesmo à cavalo ou carro de boi, todos e para todos que continuavam a insistir e caminhar, a caminhar e persistir, o chão a ser vencido não acabava nunca, todo o esforço se fazia em vão, e toda força se supunha esvair. O resultado infalível, confirmado sempre que posto à prova, não podia ser outro que não uma resignada volta, uma presumível retirada, que confirmava sem revolta – talvez imperceptível luto – que quando punham-se ao caminho de casa, o trajeto que então se apresentava era infinitamente mais curto. Em Papacu, sem exceção, todos eram testemunhas desse fato, certo como dois e dois não dão três, pois somados nos levam ao quatro, porém juntos, ao se pensar de imeditado, coisa que a despeito só se pensa depois, sei que por outro caminho ainda recuso o três, cede a vez o quatro, e assim chego ao vinte e dois.

Inclusive, conta-se na História Contada da Ilha, um caso passado no amanhecer dos tempos, sobre um pescador e sua filha doente, que desacreditada por médicos e pais-de-santo, perdida do corpo e do espírito, com glóbulos brancos inativos e um permissivo anjo indolente, levou seu pobre pai a fazer promessa para a Virgem, à quem suplicou cessar o inconveniente. Como naqueles tempos de outrora as coisas ainda eram muito novas, e por isso mesmo eram tempos de fartura, inclusive fartura de tempo, os milagres eram bem mais fáceis de se conseguir, já que os santos que desembarcaram na Ilha junto aos primeiros colonos europeus, por estranhamento e falta de intimidade dos homens daquele lugar para com eles, ainda não tinham tantos pedidos, tantas vozes a serem ouvidas, e por isso mesmo eram mais atenciosos e precisos, e com seu público cativo, então, dizia-se, eram bem menos comedidos. Dessa forma, pode-se dizer que surpresa mesmo não foi o evento milagroso em si, quando então a jovem filha foi vista dançando, sadia e bronzeada, por entre as flores de seu jardim, para alguns bem assanhada, mas enfim, surpreendeu a ousada promessa do pescador, que jurou, caso fosse atendido, caminhar até o Palácio e exigir das Autoridades menores impostos para os devotos da Santa, e por semana mais dois domingos. Nunca mais se ouviu falar do pescador, nem ninguém parecia tê-lo visto em sua peregrinação, desde há muito e até então.

Desgraçadamente, dezenove anos depois, com quase um quarto de vida em atraso – e falo o que falo por conta do caso, onde o triste desfecho vem do grotesco relato, que não voltando o velho, e à Virgem por conta disso irritado, pelo rancor da Santa eis que seu crédito acabou decaído, e passou-se que o Velho, como por todos era conhecido, ou fato presumido, já que assim se conta, foi pelos Céus abandonado, à velhaco foi reduzido e seu destino amladiçoado; da causa não há mistério, já que o conjurado revertério do impropério divino deu-se por não ter o velho voltado, e conforme fora combinado, quando exaltado e combalido, à Santa tinha jurado, e em prantos prometido, aos devotos menores impostos, e aquilo de mais desejado, porquanto o povo havia esperado, ver o velho trazer consigo, a pesar no seu ombro enrugado, os felizes tais dois domingos, por semana três feriados; o caso teve por conseqüência uma Santa Vingança, que na falta absoluta da Divina Clemência, fez morrer a filha tempos depois, deixando com sua lembrança um povo deprimido, que digo ao pé do ouvido, de fato nunca se recompôs, ao ver que a menina enquanto dançava, dançava uma vida que já se acabava, que o corpo ondulava por já consumido, flutuava seu prazo de vida, que de súbito expirava, com o último acorde vencido –, sabendo do povo revoltado, interpelados sobre o ocorrido, por carta as Autoridades noticiaram o esperado, e lamentando o velho perdido, avisaram que “dentre as centenas de cidadãos que lá chegavam todos os dias para ter com as Autoridades, e eram muito bem recebidos, diga-se de passagem, infelizmente, dentre todos, nenhum deles era o velho pescador, nem nada se sabia de sua viagem”. Como nota a princípio curiosa, depois histórica, e finalmente cosmológica, desse momento de tristeza e dor, primeiro do pai pela filha e logo da filha pelo pai, e enfim, de todo o povo pelo pai e pela filha, devo registrar, com o orgulho de um devoto e votos de solidariedade, que o esforço do velho acabou por ser recompensado, resultando por fim canonizado, pouco tempo depois, com a Santa se reconciliado, e sentado ao seu lado para sempre então se pôs. E assim foi que, constatados alguns milagres que ninguém conhecia – mas que aprovaram, multiplicaram e, por fim, aumentaram – para evitar descontentamentos e possíveis revoltas, o velho pescador recebeu por seus feitos heróicos uma auréola de ouro, e como ente superior, passou a ser o protegido da Virgem, e enteado de Nosso Senhor – conforme assim se conta, por aquelas terras vastas, onde o Santo das Botas Gastas é recebido com louvor.

Quarta-feira, Abril 04, 2007


AS PALAVRAS
SÁBIAS DO
SENHOR
PLAYMOBIL ........ (# 04)



"Se uma vaca pudesse

ela comeria você e toda sua família"

Terça-feira, Abril 03, 2007

"Sua cabeça é seu guia"

Segunda-feira, Abril 02, 2007

Em breve tem novidade no FQL!


Caros amigos, este da foto é o Turco do Bigode, um jovem estudante de comunicação cujo intercâmbio no Brasil já estava por terminar. Seguindo nossa tradição de abrigar imigrantes ilegais, resolvi lhe dar uma oportunidade de trabalho aqui no Fundo de Quintal Literário. Assim sendo, em breve nosso mais novo integrante inaugurará sua coluna "O Bom e Velho Heterossexual Masculino", trazendo reflexões e dilemas dessa espécie tão rara nos tempos do EMO...


Não nos dê as costas - pois como você já sabe

isso não é coisa que se faça com

O Bom e Velho Heterossexual Masculino!

(por Turco do Bigode)

Livros, Discos e Sei Lá Mais o Quê # 09


Sei Lá Mais o Quê indicado: Os Mestres Loucos
Este impressionante documentário de apenas 30 minutos dirigido pelo antropólogo francês Jean Rouche é, incontestavelmente, um dos trabalhos etnográficos mais chocantes e sedutores já produzidos no século XX. Isto porquê o vídeo Les Maîtres Fous, filmado inteiramente em uma única e insólita tarde de 1955 em Accra, capital de Gana, retrata com riqueza e profundidade o tema da resistência cultural, realizada, no caso em questão, por meio da reapropriação nativa dos signos de dominação ostentados pelos povos colonizadores presentes na Costa do Ouro africana.

É neste centro urbano e comercial sob a égide do domínio britânico, cuja economia em pleno desenvolvimento atrai populações de todo o continente, que se desenrola a cerimônia dos Haouka, novos deuses apartados da tradição cultural africana que representam, no seu culto religioso, os poderes da técnica e da modernidade oriundos da estrutura social inglesa que por lá se impôs. Assim é que o "maquinista", o "piloto de caminhão", os "sentinelas" (que guardam o lugar sagrado com falsos rifles de madeira), o "general", o "tenente" e o "comandante" constituem entidades que se referem às transformações da milenar economia de subsistência africana em parte integrante da divisão internacional do trabalho como colônias ricas em mão-de-obra barata e em recursos naturais.

Jean Rouch estabelece o corte magistral que contrapõe o ritual dos Haouka ao da parada militar britânica no qual aquele se baseia, tornando clara a estratégia de desconstruir o modelo colonial de organização política da sociedade africana. O filme possui cenas fortes que vão da possessão dos praticantes ao sacrifício de um cachorro, e não deve ser visto por olhos demasiadamente ocidentalizados. Ficamos, agora, com um trecho da narrativa que acompanha as cenas deste incrível documentário:

"Os praticantes do culto Hauka, trabalhadores nigerienses reunidos em Accra, se reúnem à ocasião de sua grande cerimônia anual. Na ‘concessão’ (…) do grande padre Mountbyéba, após uma confissão pública, começa o rito da possessão. Saliva, tremedeiras, respiração ofegante…são os signos da chegada dos ‘espíritos da força’, personificações emblemáticas da dominação colonial : o cabo da polícia, o governador, o doutor, a mulher do capitão, o general, o condutor da locomotiva".

Domingo, Abril 01, 2007

"Unidos venceremos"


Quinta-feira, Março 29, 2007

Contos de Quinta...

Procura-se

Não podia acreditar no que seus olhos lhe contavam. Ali, no fundo do sobrado onde, no andar térreo, funcionava uma tabacaria, havia bem mais do que sua racionalidade pequeno-burguesa poderia suportar.

Isto é, para além dos cigarros, charutos, piteiras, isqueiros, cachimbos e rapés típicos deste estabelecimento; para além do café, do bolo, dos pães de queijo, dos brownies e demais confeitos que ali são servidos; para além dos homens pálidos e seus jornais, livros, revistas, cartas de amor, papeizinhos dobrados, entre outras formas típicas de distração solitária que por lá são usuais; para além de todos e de tudo que se espera em lojas como aquela, bem ali, no fundo da tabacaria, existia um sonho.

Sem ao menos conseguir lembrar como foi que chegara naquele ambiente, quando, na verdade, apenas procurava uma revista importada ao sul do estabelecimento, o homem não questionou, não perguntou e não recuou. Sentiu-se simplesmente maravilhado e, tomado por um tipo particularíssimo de êxtase, deixou-se largar e caiu de sopetão em um delicioso sofá que, curiosamente, antes parecia não existir.

Percorreu com os olhos cada metro quadrado do lugar, no qual homens felizes e tenazmente ébrios trocavam falsas confidências à meia-luz de fumaça e espuma; cortejados sem exceção por funcionárias risonhas que, não fosse pelos corpos voluptuosos, seriam para sempre lembradas por sua extrema simpatia; cercados por mesas de jogos nas quais o dinheiro para aposta não acabava nunca, ainda que se apostasse mais e mais; onde mesmo a saúde padecia, mas não nos corpos entupidos de frituras e sim no seu próprio determinismo desumano.

Estava em casa. Outros como ele também estavam. Tirou o casaco, desligou o celular e, antes que pudesse pensar em qualquer coisa, foi generosamente servido por uma das jovens funcionárias.

Vinte anos depois a esposa ainda chorava pelo marido que saiu para comprar cigarros e nunca mais voltou.



AVISO
:
- nossas atividades estão paralisadas até domingo -

Quarta-feira, Março 28, 2007


"Papai, me dá 25 centavos?!"

Terça-feira, Março 27, 2007

"Normal"

Eu tenho medo de andar na rua
De manhã quando tem gente normal
Eu tenho medo de gente normal na rua
E cedo isso é muito natural

Gente normal olha desconfiada
E não diz as horas pra ninguém
De manhã, pessoas quase sempre emburradas
(eu tenho medo de encontrar alguém)

Eu tenho pânico de gente chata
Gente normal na rua é geralmente assustador
Mas pior que ver gente normal na rua
É encontrar gente normal no elevador

De perto todo mundo é esquisito
De longe tudo é falso e tão normal
De perto quase ninguém é tão bonito
De longe isso é um problema social

Pedi informação pruma pessoa
E essa pessoa certamente era normal
E como normalmente acontece
Recebi uma cara feia usual

Será então a causa o meu cabelo?
Ou todo meu conjunto visual?
Eu penso, muitos vezes, é meu cheiro!
(malucos quase sempre cheiram mal)

Mas e se eu tivesse um perfume francês?
E se meus olhos não estivessem tão vermelhos?
Talvez passasse como um bom burguês
Talvez quebrassem todos meus espelhos

Eu tenho medo de gente normal
E gente normal tem medo de mim
São medos, entretanto, diferentes
Normal, se isso não fosse tão ruim...

Segunda-feira, Março 26, 2007






Eu odeio Faustão.





Eu gosto do cactus Lophophora Williamsii.

Domingo, Março 25, 2007


"Keep walking"

Quinta-feira, Março 22, 2007

Contos de Quinta...

De: Nestor

Para: Humanidade
(em mãos)

Meu nome é Nestor Loureiro ou simplesmente “O Velho”, como sou conhecido há pelo menos trinta anos. É assim que me chamam por aí, em todo lugar, como se a velhice me diferenciasse do resto dos homens e fizesse de seus passos enfadonhos algo mais ardente e vivo. Mas não, não há nada que me separe deles, sejam bebês molengas e barulhentos ou mesmo aqueles indivíduos mal-trapilhos e afeminados que, neste maldito século vinte e um, empunham o estandarte da juventude. Tudo o que posso atestar, como velho que sou, é que de 1910 para cá confirmam-se, para mim, já 96 primaveras neste planeta, algo que não garanto para os tais viventes mais jovens e, supostamente, mais afortunados.

Aliás, o motivo desta que é a primeira de uma série de outras missivas endereçadas à humanidade veio a nascer em agosto de 1939, no dia do meu 29ª aniversário, quando então desejei ver exterminada toda a raça humana. Desde então, sonho com o holocausto responsável pela eliminação do homo sapiens sapiens deste maravilhoso planeta e rogo para que, de fato, este desejo se realize exatamente um dia após minha partida para o além. Nada mais, nada menos.

Com o passar dos anos, no lugar da senilidade, acabei por adquirir uma clareza de pensamento impressionante. Apelideia-a carinhosamente de “verdade”. Porém, mais que esta narrativa narcisista, importa assinalar que sobre mim se abateu, no ápice de tal esclarecimento, uma convicção arrebatadora e inquebrantável sobre o término do domínio humano na Terra. E o que eu sei é o que eu sei.

Antes que alguém se pergunte sobre a concessão do pequeno interlúdio de vinte e quatro horas que precede a catástrofe vindoura, e pior, veja nele algum traço de generosa piedade, adianto-me no esclarecimento de sua necessidade e pertinência para meus planos apocalípticos. Muito embora tenha cultivado um ódio descomunal pelos advogados durante toda vida, é na mão de um deles que repousa a tarefa de tornar público o conteúdo destes papéis, no curso de vinte e quatro horas após minha morte – justamente a data que virá a ser, como acredito piamente, o último dia do homem. Por isso que, estando tão certo sobre o fim, julguei apropriado deixar um conjunto de cartas endereçadas à humanidade, onde constam, por meio de depoimentos ranzinzas e esbrajevos condizentes, as razões que justificam sua merecida extinção.

Um instante. Não sou e nem nunca fui um alguém sorumbático, cinza, penumbrial. Pressupor tais características em face deste exótico desejo de ver extintos meus co-irmãos de espécie seria um verdadeiro menosprezo à minha persona imprevisível. Pois digo que são nos dias mais belos e convidativos, quando então o planeta parece mostrar-se pronto para uma festa, que se projeta com força tectônica, do meu íntimo mais íntimo, o desejo de ver tudo acabado quando tudo já estiver acabado para mim. A depressão dos dias frios e chuvosos não passa de um clichê social reservado aos mais patéticos dos homens. Ao contrário deles, sempre me sinto excitado nestes dias, pois saio pelas ruas com o guarda-chuva aberto, procurando andar sob as marquises para então furar os guarda-chuvas daqueles sem-vergonhas que se esquecem que as marquises são prioridade dos que não dispõem de guarda-chuva...

Admito que sempre fui um solitário por opção. Contudo, por maior que seja o paradoxo desta afirmativa, isso não significa que vivi meus dias alheio ao amor e a amizade. Se por conta desta solidão me vi alijado de algo, este algo foi a total falta de entrega aos humanos. Jamais abriguei, no meu corpo e alma, verdadeiramente, a ninguém. Inclusive, posso afirmar com certa segurança e paz de espírito, nunca me envolvi com qualquer pessoa cuja cumplicidade e devoção me obrigasse à responsabilidade de efetuar uma simples chamada telefônica. Não consigo me adaptar à complexidade sufocante, pedinte e draconiana da sociedade, por demais rigorosa para alguém como eu, cujo comportamento ainda persiste, após tantos anos, situado abaixo de qualquer parâmetro civilizacional do Ocidente.

Naturalmente, essa minha repulsa aos grilhões da sentimentalidade acabou por se estender, também, aos animais de estimação dos quais homens e mulheres, velhos e crianças, ricos e pobres, extraem seu doce paliativo interacionista. Nada tenho contra os animais, muito pelo contrário. Admiro com paixão, por exemplo, a malandragem das hienas e a elasticidade gastronômica dos ratos. A fauna doméstica convencional, por outro lado, me desperta grande irritação, já que não suporto a subserviência canina e a independência dos felinos fere meu ego. Isto posto, entretanto, tenho o Ernesto por companheiro há bem uns quarenta e dois anos...

Ernesto é um lagarto australiano, discreto e adequado o suficiente para minha filosofia de vida, que levo filosoficamente só. Impressionante como sua serenidade petrificada permanece a mesma desde seus tempos juvenis, como se quatro décadas em nada tivessem pesado naquela arquitetura biológica milenar. Ernesto não me exige nada, e nada exijo dele para além disso. Somos feitos um para o outro e, pela admiração que nutro por ele, fosse o caso de possuir alguma crença na rotatividade da vida após a morte, desejaria reencarnar como lagarto. Australiano, é claro (muito embora tenha algumas discordâncias quanto a necessidade da Oceania no contexto terrestre). Daí é que me pego pensando, vez por outra, se as transformações provocadas pelo futuro cataclisma seriam capazes de contribuir, de alguma forma, para fazer dos lagartos impávidos os próximos seres detentores do poder, na amplitude devastadora desse planeta morno.

Não raro durmo com esses pensamentos, sonho e acordo imaginando como seria interessante saber do homem, nesse futuro insólito, não mais que uma curiosa peça de museu: na qualidade de fóssil, conservado em magma endurecido e resfriado qual fosse pedra morta, por anos a fio antes de se ver descoberto ele veria descansar, sobre a formação rochosa de seu claustro histórico, centenas, milhares de jovens lagartos, deliciosamente ignorantes, estirados sob o signo da vacância, no sol abrasador de sua nova era geológica.

Desta feita, certo do fim que dará um novo início ao planeta, explicado o cataclisma, sobretudo, em seus meandros mais genéricos, creio que, para os objetivos desta primeira carta, as palavras que por hora ordenei em frases e que, quase por mágica, ordenaram minhas idéias e argumentos, cumpriram com louvor sua primeira missão. A estas palavras seguirão outras, que outras seguirão, até que, sem mais poder elucidar e ordenar, encontrar-se-ão extintas tanto quanto aqueles que delas agora fazem uso.

E tenho dito.

Cordialmente,

Nestor Loureiro.
(ser humano desde 1910)

Quarta-feira, Março 21, 2007

ATENÇÃO JOVENS,
DIOGO LYRA